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9-abril-2026 Ano 2

Como a meritocracia subvaloriza as profissões fundamentais

No Brasil, o discurso da meritocracia atua como motor no ciclo da subvalorização do trabalho pelo trabalhador. Veja como ele se origina e é difundido.
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Os trabalhos essenciais para a sociedade são subvalorizados, mas por quê? A resposta está nas ideologias altamente difundidas, como a meritocracia, que são incorporadas pelas classes mais baixas, moldando a percepção do trabalho. A subvalorização se torna natural para o indivíduo, que não enxerga o valor do próprio trabalho.

Em entrevista à Agenzia, Vitor Ahagon relatou que antes de se tornar sociólogo e professor, foi atendente de telemarketing e viveu na pele uma experiência de desvalorização do seu trabalho: quando trabalhava numa empresa de telemarketing, viveu uma situação humilhante. Era Natal e as vendas estavam em alta, então sua gerente, com a justificativa de que havia mais demanda, ameaçou demitir quem tirasse folga

“Então, a gente trabalhou por um mês sem folga, né? […] E isso, fora ser humilhante, é muito degradante, e ninguém contestou”.

Vitor AHAGON

Origem da subvalorização

Quando pensamos em um emprego como gari, faxineiro, pedreiro, não costumamos almejá-los e nem teríamos orgulho de dizer que o realizamos. Há uma certa desvalorização desses trabalhos apesar de serem fundamentais para vivermos de forma civilizada nas cidades grandes em que estamos inseridos na modernidade.

Na sociedade capitalista em que vivemos, o valor do trabalho não é medido pelo seu valor social, mas pelo seu valor “intelectual”. Mesmo que esses empregos precarizados sejam indispensáveis, todos sabemos que as remunerações não são altas. O sociólogo Ahagon comentou:

“O trabalho no contexto que a gente vive, que é o contexto do capitalismo, também é uma mercadoria, assim como tudo. E o capitalismo valoriza certos trabalhos que fazem com que o próprio capitalismo se reproduza”.

Em um mundo em que o trabalho é medido por sua utilidade prática, um gari ganharia mais que um economista da Bolsa de Valores (a B3), por exemplo. Mas estamos distantes dessa realidade, esses “trabalhos que ninguém quer” são realizados, em sua maioria, por pessoas desfavorecidas, que nasceram pobres e por isso tiveram uma educação precária. A ascensão social para essas pessoas é extremamente difícil e é exatamente assim que esses trabalhos continuam tendo empregabilidade. A elite precisa que tenham pessoas em condições miseráveis para realizar essas tarefas, mantendo sua riqueza. 

Um segurança observa um motoboy na frente do Prédio Principal do Banco Bradesco - Foto: Heitor Landim / Agenzia
Um segurança observa um motoboy na frente do Prédio Principal do Banco Bradesco – Foto: Heitor Landim / Agenzia

Segundo o ativista social, artista de rua e pensador Eduardo Marinho, em entrevista à Agenzia: “Os periféricos, são induzidos a uma inferioridade que é falsa”, ou seja, o próprio trabalhador subvaloriza sua profissão. O pobre se sente inferior por estar em sua condição, mesmo que isso não seja sua culpa, o que está diretamente ligado ao discurso de meritocracia. 

O crescimento do discurso de meritocracia

O conceito da meritocracia ganhou força nos últimos anos com a ajuda da internet. Esse pensamento se encontra em vídeos curtos, palestras, venda de livros e cursos. Influenciadores e coaches compartilham a ideia de que o sucesso depende apenas da determinação do indivíduo. Esse aumento é resultado do discurso de meritocracia, que oferece uma forma de esperança, sustentando-se em frases de impacto e narrativas de superação.

Um motoqueiro passa na frente de anúncios de uma revista de negócios em uma banca de jornal - Foto: Heitor Landim / Agenzia
Um motoqueiro passa na frente de anúncios de uma revista de negócios em uma banca de jornal – Foto: Heitor Landim / Agenzia

Um exemplo de pessoa que propaga essa ideologia é o coach Pablo Marçal, que se tornou conhecido por defender a ideia de que qualquer pessoa pode alcançar a riqueza e independência, basta “acordar cedo”. Sua presença é forte nas redes sociais, postando seus conteúdos de palestras motivacionais e livros como: “Os códigos do Milhão: Como desbloquear as ilhas neuronais da riqueza” e “A arte de negociar”.

Marinho criticou esse tipo de conteúdo produzido por esses influenciadores:

“Meritocracia é uma enorme mentira. Não sei como é que tem gente que acredita nisso. Nem os que falam devem acreditar nisso. Ou então é aquela coisa, tá mentindo para si mesmo. ‘Não, eu me esforcei’, mas o pai pagou o estudo, ele nunca precisou trabalhar para comer, para ajudar a família, sabe?”

Por que esse discurso é falho?

O discurso pregado pelas elites é baseado na suposição de que todos têm as mesmas condições de ter sucesso na vida. Porém, como todos possuem a mesma oportunidade se não existe uma base sólida na formação acadêmica? No quesito escolaridade, o Brasil fica entre as últimas posições no ranking se tratando de investimentos públicos destinados aos estudantes, tendo uma média de 3.872 dólares por aluno, segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Ainda relacionado ao levantamento feito pela OCDE em 2025, 10% dos alunos são ao menos dois anos mais velhos do que o indicado para sua série escolar. Revelando assim uma falha expressiva na educação, refletida no alto índice de desistências no ensino superior. Desde a falta de infraestrutura nas escolas até a ausência de uma instrução vocacional qualificada, acarretam na falta de qualificação para o mercado de trabalho, limitando a maioria das pessoas à um salário medíocre. 

Já no quesito trabalhista, segundo o Censo de 2022 do IBGE, o tempo de deslocamento casa-trabalho aumenta conforme o salário diminui.  Além disso, cerca de 20 milhões de pessoas trabalham na escala 6×1. Isso demonstra outra inconsistência na tese da meritocracia, já que há uma diferença nas oportunidades de ascensão social e financeira entre pobres e ricos. O desamparado não tem acesso à educação de qualidade, não consegue se inserir no ensino superior, logo não é capaz de legitimar seu conhecimento e assim acaba preso a um emprego de subsistência.

Um trabalhador fuma um cigarro na calçada enquanto uma mulher em situação de rua está sentada ao fundo - foto: Heitor Landim / Agenzia
Um trabalhador fuma um cigarro na calçada enquanto uma mulher em situação de rua está sentada ao fundo – Foto: Heitor Landim / Agenzia

Sobre essa alienação gerada pelo discurso, Marinho afirma:

“(A elite) é uma turma dependente de pobres e os pobres vão achando que estão ganhando emprego, eles plantam isso. […] Quer dizer, a coisa é colocada de uma forma cruel, injusta, desumana.”

Por que a meritocracia beneficia as elites?

O sociólogo Ahagon afirma: “Ideologia é a ideia da classe dominante, incorporada pelas classes oprimidas”, de modo que esse controle seja imperceptível.

Como o poder político do Brasil é concentrado nas elites de direita, suas ideias moldam o sistema trabalhista da sociedade brasileira. “A meritocracia beneficia os super-ricos. É aquela frase do Paulo Freire: ‘O desejo do oprimido é se tornar o opressor’. Mas ele só deseja se tornar o opressor porque existe uma série de discursos e condições materiais que fazem com que esse indivíduo interiorize uma mentalidade que não é dele”, diz o sociólogo.

A transmissão dessa ideologia que faz os trabalhadores agirem contra si mesmos é sutil. Ela ocorre através do sistema de ensino, dos meios de comunicação e da indústria cultural, que nos fazem internalizar e normalizar esses pensamentos sem notar. A precarização da educação pública é outro fator de propagação: “A escola é um instrumento ideológico, um aparelho de Estado que transmite a ideologia da classe dominante e isso é incorporado pelos estudantes”, afirmou o professor.

As elites não querem que as pessoas tenham pensamento crítico, pois precisam da nossa subordinação às suas ideologias. Todo o sistema serve para a manutenção da desigualdade, impulsiona  a competição e a individualidade, assegurando as necessidades da elite para se manter no poder. 

Um construtor serra algo no chão - Foto: Heitor Landim / Agenzia
Um construtor serra algo no chão – Foto: Heitor Landim / Agenzia

Eduardo Marinho expôs sua visão sobre o sistema em que vivemos:

“É para a sociedade se manter como ela é, injusta, servindo a um punhado de bilionários e enganando a maioria da população. Porque acabam acreditando que isso aí é natural e não é natural. É a herança do colonialismo. […] Essa diferença tem que ser mantida fora da lei, ela é mantida socialmente.”

As falcatruas sociais passam despercebidas, disfarçadas pela ideologia meritocrática, induzindo os trabalhadores a não notarem o valor do que fazem. Resulta em um conformismo social que possibilita a manutenção do sistema elitista explorador, sem que os trabalhadores se revoltem diante dessa suposta “ordem natural das coisas”.

Como desconstruir o discurso

Marinho relatou sua experiência ao enfrentar o sistema, vivendo fora dos padrões impostos por tais discursos. Quando tomou a decisão de não seguir uma carreira convencional e largou a faculdade, foi repreendido por seu pai, que passaria a considerá-lo um filho morto e o disse para esquecer que um dia teve família. Mesmo com esse apelo, seguiu em frente:

“E eu fui. Tavam contando com a minha covardia, mas eu tinha tentado me enquadrar durante muito tempo. Eu fui militar, eu fui bancário. […] Quando eu vi que era impossível (me enquadrar), eu falei: ‘Não vou’. E agora eu tenho que arcar com as consequências.”

Uma senhora expõe seus produtos artesanais e artísticos na Av. Paulista - Foto: Heitor Landim / Agenzia
Uma senhora expõe seus produtos artesanais e artísticos na Av. Paulista – Foto: Heitor Landim / Agenzia

É essencial refletir sobre a sociedade. Adotar uma visão ampla do país, fora da bolha de seu grupo social, gerando conscientização. A educação é fundamental para termos conhecimento sobre a realidade em que vivemos, para perceber e entender a fonte de toda a desigualdade e gerar ideias práticas que mudem o cenário para melhor. Quando compreendemos o trabalho necessário para a existência de tudo o que utilizamos, passamos a valorizá-lo e quem o realiza.


Para nós, as futuras gerações, fica o conselho:

“Cultiva o teu dom. Cultiva a tua vocação. Se desenvolve e trabalha com isso. Você vai ser um bom profissional.”

Eduardo Marinho

Autores

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UTILIZAÇÃO DE IA
Autoria Humana Exclusiva

Este conteúdo foi produzido integralmente por humanos, sem uso de IA em nenhuma etapa.

Heitor Augustus Paes Landim

Estudante de Jornalismo da Faculdade Casper Líbero engajado em assuntos que envolvem cultura e política.