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9-abril-2026 Ano 2

Big Brother Brasil: do comportamento à idolatria

Um experimento que comprova a adoração social por trás do sucesso individual seguido pela alienação multimidiática.  
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“As personalidades que a gente quer ver ali dentro não são pessoas que a gente conviveria, mas que são boas de assistir.” Bárbara Lima, estudante de Jornalismo, afirma em relação aos  jogadores do Big Brother Brasil 26. “Reality show é um jogo, e acima de um jogo é uma mídia que serve para entreter”, comentou Bárbara, refletindo sobre a forma que o jogo é estruturado para cativar os telespectadores, que se conectam com uma narrativa fora da sua realidade. “Talvez eu não aguentasse muitas dessas pessoas que eu torço na vida real”. 

Em 2002, estreou o Big Brother Brasil, produção que mudou a relação entre público e entretenimento. O programa confina pessoas em uma casa vigiada 24 horas, sem contato com o mundo exterior, e deixa o público decidir quem fica e quem sai. O “reality show” ganhou visibilidade, tornou-se fenômeno por ser um dos maiores exemplos de interatividade com o público e, ultimamente, é dominado pela idolatria ao participante.

 A edição de 2021 ficou marcada pelo envolvimento do público e pela comoção gerada na casa. Nesse contexto, surgiu Juliette Freire, campeã do BBB 21. A ex-participante veio de origem humilde e se tornou um fenômeno, sendo a pessoa que mais acumulou seguidores durante e após o programa. Pelo carisma e por ter sido alvo de críticas e isolamento por parte dos outros participantes, conquistou o público. Sua narrativa de superação consolidou-a como favorita e desencadeou o favoritismo absoluto.

Personagens do Big Brother que receberam favoritismo absoluto. Design: Pedro Esper/ Agenzia
Personagens do Big Brother que receberam favoritismo absoluto. Design: Pedro Esper/ Agenzia

Em um artigo produzido pelo Instituto Federal da Paraíba, o autor Leandro Ferreira, afirma que o “Fenômeno Juliette” se deu por conta do seu perfil, que apresenta valores e atributos ligados à humildade. Juliette venceu com mais de 90% dos votos do público, tornando-se um ícone nacional. 

O mergulho dos internautas na narrativa do Big Brother Brasil

As alianças e conflitos dentro da casa influenciam diretamente a forma como o público enxerga os participantes. Segundo o sociólogo William Oliveira, em entrevista à Agenzia, afirma que “o espectador utiliza regras sociais básicas para classificar indivíduos”, ou seja, relações que parecem genuínas geram identificação do público.

O programa exibido desde 2002 na Rede Globo ganha forma a partir de uma narrativa construída pelos produtores do reality. Nele, cada participante é destinado ao programa com um papel velado, decidido pela produção, que divide-os em estereótipos, pressupondo discussões entre eles. A personalidade forte e características conflituosas dos participantes são sempre procuradas pela necessidade de discussões que chamem a atenção do espectador. 

A narrativa do Big Brother frequentemente constrói um “vilão” e um “mocinho” por meio de recortes e edições, que reforçam esses papéis. Participantes que erram são retratados como antagonistas, enquanto outros assumem o papel de vítima e viram “bonzinhos”, simplificando a complexidade humana. Como diz Bárbara, “sempre vai ter um bonzinho e sempre vai ter um vilão, existe uma narrativa a ser construída”. Como o caso da participante Karol Conká,  que sofreu cancelamento durante e após  sua participação. Com recorde de maior porcentagem para eliminação, teve sua carreira manchada. Suas atitudes dentro da casa afetaram sua vida fora do programa, o público a resumiu apenas ao que foi televisionado.  

O espelho de valores dentro da casa

“Se eu entrasse no BBB, com certeza faria coisas muito parecidas com as que ela faz”, diz Beatriz Esper, fã adolescente do reality show. Ela declara sua torcida à Ana Paula, favorita da edição atual, por se espelhar nas atitudes da personagem.  Essa identificação é recorrente entre os internautas, que utilizam isso para decidir sua torcida. A decisão, muitas vezes, é tomada de forma inconsciente; o fã se encontra na forma de agir e de pensar do participante. 

“Eu penso que a torcida acontece porque esbarra nos nossos valores”, afirma a psicóloga Rosemeire Ciasi, que explica que as pessoas, além de se espelhar nos participantes, desenvolvem uma identificação de valores.

Identificação social com os participantes e perda da própria essência. Foto: Rodrigo Egreja/Agenzia
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Identificação social com os participantes e perda da própria essência. Foto: Rodrigo Egreja/Agenzia.

A busca por aceitação social influencia o envolvimento do público, que se aproxima de participantes que refletem o que desejam ser. Como evidencia a especialista Rosemeire, “a gente busca aquilo que nos faz sentir aceitos”. Além disso, há um desejo de admiração: “Acho que é uma identificação no sentido do que você gosta, do que você quer ser”, diz a estudante Bárbara, fazendo com que o espectador projete no participante a forma como gostaria de ser visto na sociedade.

Alienação e fanatismo dentro do Big Brother Brasil

O termo alienação explica a separação do indivíduo de sua realidade,  o que leva à perda de autonomia, e pode ser aplicado aos reality shows. No BBB, essa alienação aparece quando o programa apresenta uma narrativa da rotina e dos conflitos dos participantes, que é dramatizada para se tornar mais interessante, distorcendo a realidade em nome do entretenimento.

O fanatismo criado pelo público com os participantes é outro sintoma de alienação. De acordo com o sociólogo William Oliveira, “Após escolher um favorito, o espectador tende a filtrar informações de modo a preservar essa escolha, ou seja, gera uma alienação.”

Na prática, o público acompanha um fanatismo inexplicável que ocorre entre telespectadores e os participantes do programa. Esse comportamento demonstra as barreiras do entretenimento que o programa ultrapassa, tornando-se um fenômeno social capaz de afetar o senso crítico do ser humano,  minimizando atitudes problemáticas do participante favorito. Bárbara entende como as “fanbases” e redes sociais afetam a narrativa e a escolha do favorito no programa: “Quem ganhava não era necessariamente o favorito, mas tinha uma torcida muito forte. Isso mostra como as redes sociais e as torcidas influenciam a escolha de um favorito para quem acompanha e como isso impacta as decisões do programa”. 

Ao longo do experimento que é o BBB, é tradicional o envolvimento de participantes em polêmicas que chocam a internet, as quais o público advoga. Cauê Conde, também estudante de Jornalismo, declarou sua torcida a Arthur Aguiar no BBB 22, ganhador e favorito durante todo o programa. O participante Arthur teve um início conturbado por conta de polêmicas envolvendo supostas traições de sua parte. Para ele, as atitudes fora de casa não influenciaram sua torcida: “Repugno qualquer atitude relacionada a traição, mas sinto que jogo é jogo, e para mim se torna favorito quem merece”.

No Big Brother Brasil, participantes comuns transformam-se em figuras emblemáticas, ganhando status de ídolos diante do público. Esse processo leva à construção de narrativas heróicas, fazendo com que os espectadores esqueçam que os ícones se tratam de pessoas comuns. 

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Beatriz Bibiano Egreja