quinta-feira

9-abril-2026 Ano 2

Lives na Twitch e a misoginia online: a normalização do machismo na mídia

Na busca por entretenimento e audiência, transmissões ao vivo na Twitch normalizam discursos machistas e revelam uma cultura digital que transforma misoginia em lazer.
1 Min Read 0 2319

“É muito legal tratar mulher como objeto. As mulheres pobres, feias e gordas ficam falando que nunca viriam na minha casa… é claro, nunca vão ser convidadas, você são feias”, declara o influenciador Ruyter, para 69 mil pessoas ao vivo na Twitch.

Nos últimos anos, essas lives estúpidas se tornaram uma tendência. Influenciadores ligam a câmera e ofendem minorias, muitas vezes mulheres, homossexuais e negros. Mas, no final do dia, eles alegam estar apenas “interpretando um personagem”.

O machismo, historicamente presente nas relações interpessoais, encontrou nas redes sociais um novo espaço de propagação, especialmente na Twitch, plataforma de streaming onde conteúdos misóginos alcançaram grande visibilidade recentemente. Mas por que esse tipo de conteúdo atrai tanta audiência?

As lives favorecem essa dinâmica ao criar uma atmosfera de proximidade e informalidade entre streamers e espectadores. Sob um contexto descontraído, falas depreciativas e que objetificam a mulher são normalizadas como entretenimento. A participação de convidadas reforça o cenário, ao inserir as mulheres em diálogos de duplo sentido, capazes de torná-las alvo de inferiorização, em nome do humor.

Da brincadeira à misoginia online

O alcance ampliado e a velocidade de circulação dos conteúdos, somados ao anonimato, transformaram as plataformas digitais em espaços propícios para assédio, discursos de ódio e exposição não consentida. Em artigo para a revista Foco, o jornalista Lucas Felix Rodrigues analisa o feminicídio como consequência da misoginia online. Segundo o escritor, as redes sociais propiciam a criação de uma comunidade, em um meio descontraído, no qual práticas misóginas e discursos machistas são tratados como simples “brincadeiras” ou “opiniões”, normalizando o ódio contra mulheres. Essa normalização possui um potencial motivador de atos de extrema violência: “Diversos casos revelam que autores de feminicídio possuíam vínculos com essas comunidades”, ressalta Rodrigues.

A misoginia online não é um fenômeno isolado, reproduz mecanismos de controle sobre o comportamento feminino. Rodrigues aponta que o cenário faz parte de um contínuo de violência, naturalização de comentários ofensivos e exposições digitais, que acabam criando ambientes de desumanização ao legitimarem comportamentos agressivos. Além de impactar diretamente a reputação individual feminina, sua saúde mental e participação pública, comprometendo, assim, a diversidade de vozes no ambiente digital.

As piadas e memes, tão comuns nos momentos de descontração das lives na Twitch, ajudam a naturalizar comportamentos agressivos, tornando a misoginia mais aceitável socialmente. Em seu artigo, Rodrigues ressalta que a misoginia online deve ser tratada como parte central do fenômeno da violência de gênero. Há uma dificuldade de adaptação das políticas públicas às novas formas de agressão, especialmente no ambiente digital, como a aplicação fragmentada da legislação e baixas taxas de condenações, que devem ser revertidas.

 A influência dos streamers

Não é apenas o conteúdo das lives que preocupa, mas também a relação criada nelas. A sensação de proximidade entre espectador e streamer é a porta de entrada para a normalização de discursos misóginos. É o que aponta o antropólogo e cientista social pela Unesp, Brenno Demarchi, em entrevista à Agenzia: “Tem aquela relação parassocial, que você passa tanto tempo assistindo a pessoa que você acha que é amigo dela”. 

Essa relação é um vínculo emocional unilateral, que acontece muito em casos como esse, quando você assiste ou ouve alguém com tanta frequência que seu cérebro começa a processá-la como uma relação real de parceria e amizade, e não como uma relação entre produtor e consumidor, por exemplo.

 Demarchi destaca que a tecnologia não é neutra, é social, reproduz o que se vê na sociedade, como feminicídio e LGBTfobia. Ele menciona que a liberdade de expressão tem limites. Discursos, mesmo que não resultem em violência física imediata, têm uma materialidade e influenciam pessoas de todas as idades, não apenas crianças e jovens. Os consumidores de conteúdo “red pill”, homens frustrados, encontram nesses conteúdos uma falsa resposta para seus problemas, passam a acreditar que aquilo vai resolvê-los, exemplificou. “Essas empresas têm responsabilidade e cumplicidade, ou seja, participação nisso que ocorre” , conclui Demarchi. “Com certeza eles têm dados, eles conseguem fiscalizar e fazer um filtro.”

Menino sendo gravado por duas câmeras para a produção de uma transmissão ao vivo, veículo frequente para disseminação da misoginia online.
Gravação de uma transmissão ao vivo, veículo frequente para a disseminação da misoginia online. Fonte: Libby Penner/Unsplash

A captação dos jovens

O influenciador Ruyter Poubel é apontado como grande destaque nesse meio ‘’red pill “, tendo, inclusive, servido como porta de entrada nessa comunidade para muitos jovens. Inclusive para Rafael Toledo, usuário da Twitch, em diálogo com a Agenzia disse. ‘’Eu tenho noção do que eu assisto, né?’’, afirma. Apesar de consumir esse tipo de material, ele revela acreditar que tais figuras sejam personagens construídas com o objetivo de ampliar o número de visualizações.‘’Ele percebe que o público gosta disso, desse jeito dele, de ser dessa forma, de falar essas coisas…’’ 

Outro espectador de lives com esse teor, que preferiu não ter seu nome exposto, admite nunca ter parado para pensar a fundo nas consequências de dar visibilidade a esse tipo de transmissão. ‘’O absurdo me fazia rir “, ele desconversa. Para ele, o conteúdo gera entretenimento, ainda que recorra a ações e discursos que depreciem a figura feminina. Segundo o mesmo, a audiência teve início por meio do aplicativo de vídeos de curta duração TikTok e, gradualmente, tornou-se ainda mais frequente na Twitch.

Além das transmissões ao vivo desses influenciadores, há uma repercussão nas demais plataformas digitais, por meio de “cortes” das próprias lives. Muitos espectadores republicam falas marcantes e polêmicas – que na maioria dos vídeos são falas e atitudes que inferiorizam e objetificam a mulher. “Já cheguei a assistir a live de um influenciador enquanto via cortes do outro”, observa um dos espectadores anônimos. Muitos streamers mostram, também, como é, na prática, a relação entre influenciadores e convidadas. O entrevistado observa que toda essa sexualização, ostentação e luxúria fazem parte do processo de criação de conteúdo. 

Acompanhar essas lives já faz parte da rotina de muitos jovens, os quais assumem assistirem sempre que conseguem. O entrevistado trata esse assunto com normalidade e não enxerga a problemática que existe por trás desse tipo de conteúdo, aponta que, em sua visão, na maioria das transmissões, a sensualidade começa a partir das atitudes que as mulheres têm durante as lives.

 Por outro lado, na contramão desse cenário, alguns adolescentes ainda demonstram consciência crítica sobre o conteúdo que consomem e o mundo em que vivem. É o caso do outro jovem entrevistado, que afirma não considerar adequadas essas lives, justamente por nelas o ódio às mulheres ser amplamente disseminado, ainda que frequentemente mascarado sob a justificativa de “personagem”. Ele acrescenta que todos os envolvidos deveriam ser responsabilizados, sobretudo diante da recente implementação da lei que criminaliza a misoginia.

A responsabilidade coletiva diante do ódio digital

O avanço da misoginia como entretenimento no meio digital não é um fenômeno espontâneo, é o reflexo de uma sociedade que, por anos, normalizou a subordinação feminina e encontrou nas redes sociais, um palco para perpetuá-la. O que se disfarça de divertimento descompromissado nas lives da Twitch se torna, na verdade, uma maneira de influenciar comportamentos, moldar visões de mundo e, em casos extremos, alimentar a violência de gênero.

Plataformas, anunciantes, criadores de conteúdo e espectadores compartilham, em diferentes graus, a responsabilidade por esse ecossistema. Fiscalizar, filtrar e responsabilizar não são atos de censura, são medidas mínimas de proteção a direitos fundamentais. Enquanto o ódio render visualizações e dinheiro para os criadores, ele continuará sendo produzido.

No fim, a pergunta que fica não é só sobre algoritmos ou políticas de moderação, é sobre a sociedade: se continuarmos a normalizar o ódio, como saberemos o momento exato em que cruzamos o limite?

Autores

  • Stella Soares de Melo Perez

    Sou estudante de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero e redatora no projeto AgenzIA. Entendo a comunicação como ponte para o exercício da cidadania e para a consolidação democrática. Junto a Nina Simonetti, Julia Pádua, Camila Rangel, Camila Félix e Ana Júlia Galhardo escrevi uma matéria sobre a misoginia online, veiculada pelas transmissões ao vivo (lives).

  • Nina Simonetti, ao lado de Ana Galhardo, Camila Felix, Camila Rangel, Júlia Pádua e Stella Soares, em uma reportagem sobre a misoginia nas lives da Twitch. O projeto investiga como o entretenimento ao vivo pode normalizar discursos machistas para a geração Z, e por que isso merece mais atenção.

  • Camila Felix, ao lado de Ana Galhardo, Camila Rangel, Júlia Pádua, Nina Simonetti e Stella Soares, realizamos uma reportagem para a AgenZia sobre a misoginia nas lives da Twitch. O projeto investiga como o entretenimento ao vivo pode normalizar discursos machistas e a objetificação da mulher nesse meio, e por que isso merece mais atenção.

  • Camila Rangel, ao lado de Nina Simonetti, Stella Soares, Camila Felix, Ana Galhardo e Júlia Pádua, em uma reportagem sobre a misoginia nas lives da Twitch. O projeto evidencia como o humor misógino e machista vem sendo naturalizado digitalmente e se tornando comum em transmissões online.

  • Ana Julia Galhardo

    Ana Galhardo, junto de Nina Simonetti, Camila Felix, Camila Rangel, Júlia Pádua e Stella Soares, participa de uma reportagem que aborda a misoginia em transmissões ao vivo na Twitch. O projeto analisa de que forma o entretenimento em tempo real pode contribuir para a naturalização de discursos machistas entre a geração Z, além de discutir por que o tema exige maior atenção.

  • Júlia Pádua, ao lado de Ana Galhardo, Camila Felix, Camila Rangel, Nina Simonetti e Stella Soares, escrevemos uma reportagem sobre a misoginia nas lives da Twitch. O projeto investiga como o entretenimento ao vivo pode normalizar discursos machistas para a geração Z, e por que isso merece mais atenção.

🤖
UTILIZAÇÃO DE IA
Uso Mínimo de IA

A IA foi utilizada apenas para suporte pontual, com controle editorial humano integral.

  • 🔍 Apuração: auxílio de IA
🛠️ Ferramentas utilizadas: Google Pinpoint
📝 Justificativa: A ferramenta Google Pinpoit (IA) foi utilizada para a transcrição do áudio de uma das entrevistas realizadas na matéria.

Stella Soares de Melo Perez

Sou estudante de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero e redatora no projeto AgenzIA. Entendo a comunicação como ponte para o exercício da cidadania e para a consolidação democrática. Junto a Nina Simonetti, Julia Pádua, Camila Rangel, Camila Félix e Ana Júlia Galhardo escrevi uma matéria sobre a misoginia online, veiculada pelas transmissões ao vivo (lives).