Mesmo com a forte presença de atletas negros, cargos de comandos seguem predominantemente nas mãos de profissionais brancos, refletindo o impacto do racismo estrutural no acesso a cargos de liderança no esporte
Maioria dentro de campo, minoria no comando. O futebol brasileiro revela um contraste racial evidente. Negros representam mais da metade dos jogadores profissionais. Mas técnicos negros são minoria absoluta, especialmente nos times da elite. Levantamentos de 2024 e 2025 do Observatório da Discriminação Racial do Futebol indicam que menos de 8% dos treinadores são negros nas principais divisões do futebol nacional.
Esse cenário, revela um padrão persistente de desigualdade dentro da estrutura do futebol brasileiro. Os prestadores de serviços negros, no futebol, sofrem muito mais que os brancos. Esse racismo oculto faz com que negros, não jogadores, percam oportunidades de trabalho e tenham até de mostrar mais serviço do que seus companheiros brancos. E é algo que se repete globalmente.
Os pesquisadores Donald Alves da Silva, da Universidade Federal de São Paulo, e Flavia da Cunha Bastos, da Universidade Santo Amaro, destacam que 90% dos técnicos na elite do Brasil são brancos, o que indica a falta de representatividade de treinadores negros. Um número desproporcional aos mais de 50% dos jogadores de futebol que são negros.

Por que o futebol é racista?
Diversos fatores ajudam a explicar essa desigualdade na ocupação de cargos de comando no futebol brasileiro. O principal é o racismo estrutural que ultrapassa o ambiente esportivo e influencia quem tem acesso às oportunidades de liderança. Mesmo com a maioria dos jogadores sendo negros, cargos de comando — como o de treinador — ainda são ocupados, em grande parte, por profissionais brancos.
‘’Tive o prazer de entrevistar o Roger Machado (técnico do São Paulo), e ele falou algo que é o passaporte da branquitude’’, disse Jailson Vilas Boas, jornalista da ESPN que concedeu uma entrevista exclusiva à Agenzia. “A base do futebol? É aqui. É o campo. Então, a população preta, ela pode entregar por conta da sua técnica, por conta do seu físico, na base do futebol. Mas no momento que você tem que começar a subir, seja para ser um cargo de auxiliar técnico, o treinador, um dirigente, presidente, você mesmo com estudos não recebe esse convite para alçar voos maiores.”
Roger Machado, técnico do São Paulo Futebol Clube é o único treinador negro que comanda uma equipe entre os 20 clubes participantes da elite do Brasileirão. Ele se tornou o primeiro treinador negro efetivo do clube em 37 anos, apenas o quinto na história do time. Na equipe do Sport Club Corinthians Paulista, em 2016 foi contratado Cristóvão Borges. Na época, o clube estava há mais de duas décadas sem um treinador negro no comando. Outros poucos profissionais negros passaram pela função, mas muitas vezes apenas de forma interina.
Estereótipos históricos no futebol
Existe também uma herança de ideias preconceituosas que associam jogadores negros mais à força física do que à capacidade criativa e estratégica. Estereótipo que acaba impactando diretamente a escolha de treinadores e jogadores.
Diferentemente de outros países e ligas, o futebol brasileiro ainda possui poucas iniciativas voltadas para aumento da diversidade entre treinadores e dirigentes. E parte do problema é financeiro. O curso necessário para se tornar treinador profissional pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) pode custar em torno de 50 mil reais. Em um País onde desigualdade econômica e racial muitas vezes caminham juntas, esse valor dificulta a entrada de profissionais negros no mercado.
Um cenário global do racismo no futebol
Esse cenário não é exclusivo do Brasil. Na Europa, apesar de nomes como Patrick Vieira, Vincent Kompany e Thierry Henry tenham conquistado espaço recentemente, a presença de treinadores negros ainda permanece reduzida. Entre as equipes das cinco principais ligas europeias, apenas uma pequena parcela é comandada por técnicos negros, o que reforça que a desigualdade nos cargos de comando também é um fenômeno global.
Essa desigualdade racial nos cargos de comando não é apenas resultado de casos isolados, mas de fatores estruturais presentes no futebol e na sociedade brasileira. Redes de contratação pouco diversas, menor tolerância a resultados negativos e a persistência de estereótipos raciais contribuem para que treinadores negros tenham menos oportunidades e menos tempo para desenvolver seus projetos.
Como já afirmou Roger Machado em entrevista – ‘’Um ex-atleta branco consegue se esconder e eu não consigo. Minha cor me denuncia. O futebol talvez amplifica em todas as formas como somos como sociedade, as coisas boas e as coisas ruins’’

Conscientização não basta
A desigualdade racial nos cargos de comando do futebol brasileiro não é um fenômeno isolado do presente, mas um reflexo de desigualdades históricas que ainda restringem o acesso a posições de liderança no esporte. Embora o futebol tenha se consolidado como um espaço de destaque para atletas negros, a presença desses profissionais em cargos de decisão continua limitada.
O que se vê no esporte preferido pelos brasileiros se repete em outras quadras e arenas. Ou, como alertam os pesquisadores Donald Alves da Silva e Flavia da Cunha Bastos, “a escassez e exclusão de pessoas negras em posições de liderança, como treinadores, resultam do racismo e de estereótipos sobre pessoas negras, que são percebidas como humildes e subservientes demais ou autoritárias e agressivas demais”.
Em suma, avançar nesse debate exige mais do que reconhecer o problema. É necessário ampliar o acesso à formação técnica, repensar critérios de contratação e incentivar maior diversidade nas estruturas de comando. O futebol, como um dos maiores fenômenos culturais do país, também precisa assumir seu papel na construção de um ambiente mais representativo e igualitário.
Foto de capa: Home SPFC
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