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9-abril-2026 Ano 2

Sportwashing: como o esporte se tornou ferramenta de imagem global

O sportwashing como ferramenta de poder: Como o Soft Power e investimentos bilionários transformaram arenas em vitrines de propaganda política…
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O sportwashing como ferramenta de poder: Como o Soft Power e investimentos bilionários transformaram arenas em vitrines de propaganda política

Por Ana Maria Shimizu, Barbará Serra, Cauê Condé, Isabela Rosa e Tony Queiros

Sportwashing refere- se à “lavagem” das reputações complicadas de corporações ou países por meio de investimentos no âmbito do esporte. A construção do termo se dá por “sport”: esporte e “washing”: lavagem. Ou seja, uma limpeza a partir do esporte.

Nos últimos anos, essa expressão tem se potencializado cada vez mais, principalmente em países do Oriente Médio. A estratégia se baseia na utilização de instrumentos de soft power, e tem como objetivo reconstruír a imagem de um país no cenário internacional por intermédio do esporte (nation branding), destacar seus lados positivos, ofuscar a atenção dos problemas político-sociais presentes nesses lugares e lucrar através do investimento em eventos esportivos globais, como as Olimpíadas e a Copa do Mundo.

Esse tipo de estratégia passou a se firmar porque as nações passaram a perceber que sua imagem internacional influenciava diretamente relações diplomáticas, econômicas e políticas. Em um panorama de crescente interdependência global, intensificado em seguida à Guerra Fria, a reputação passou a ser um ativo calculado. 

É nessa circunstância que o fundamento do soft power e do hard power se torna primordial. De maneira distinta do hard power, embasado na coerção militar ou econômica, o soft power opera por meio da atração e da construção de relatos favoráveis. O sportswashing manifesta-se justamente como uma aplicação prática desse mecanismo: empregar o esporte como meio de gerar prestígio, destaque, e aceitação internacional.

No artigo “Dos mecanismos e mitos: conceituando as estratégias de ‘soft power’ dos Estados por meio de megaeventos esportivos”, de Jonathan Grix e Paul Michael Brannagan, os pesquisadores apontam como os países podem se utilizar de ferramentas de soft power para se promover: “os Estados podem optar por adaptar indiretamente a agenda política de modo a moldar as preferências dos outros por meio, por exemplo, da emulação de seus ‘ativos intangíveis’: cultura atraente, ideologias inovadoras e/ou instituições, valores e políticas críveis e dignos de admiração.”

O esporte se firmou como a ferramenta perfeita para essa estratégia porque combina três fatores indispensáveis: alcance global, forte apelo emocional e associação a valores positivos, como triunfo, união e mérito, algo que Grix e Brannagan apontam como “a capacidade de alcançar objetivos por meio da atração, em vez da coerção”.

A instrumentalização do esporte

Apesar do primeiro caso de grande relevância de sportwashing no futebol ser a Copa do Mundo de 1934, na Itália fascista de Benito Mussolini, a prática é atual e segue frequente nos clubes recentes, como por exemplo, a compra do Manchester City, adquirido em setembro de 2008 pelo Abu Dhabi United Group.

​Naquele período, a compra do clube inglês foi planejada de forma estratégica pelo grupo, com apoio do governo dos Emirados Árabes Unidos, com o objetivo de desviar o foco das críticas sobre o autoritarismo no país e questões de direitos humanos.

Um dos casos mais recentes de sportswashing no futebol europeu ocorreu em 2021, quando o Newcastle United, da Inglaterra, foi adquirido pelo Public Investment Fund (PIF), fundo soberano da Arábia Saudita. A operação integra uma estratégia mais ampla do governo saudita, que também se conecta à realização da Copa do Mundo Fifa 2034 no país. 

Newcastle United football club badge
Brasão do time britânico, Newcastle United Football Club. Foto Kelly McClay

Investir na própria liga de futebol também tem se tornado uma prática comum dentro do sportwashing. O que deu início a isso foi a contratação de Cristiano Ronaldo pelo Al-Nassr, em 2023, catalisando a entrada de outros nomes na liga saudita posteriormente, como Neymar Jr., Karim Benzema, N’Golo Kanté, Roberto Firmino, Sadio Mané, Mahrez e o técnico Jorge Jesus.

No boxe, o sportswashing se manifesta por meio da realização de grandes lutas em países que buscam projetar uma imagem positiva no cenário internacional. Um exemplo histórico é a luta entre Muhammad Ali e George Foreman, realizada no antigo Zaire, atualmente República Democrática do Congo, em 1974, que foi utilizada pelo governo local como forma de promover o país globalmente.

A Fórmula 1 se faz também presente dentre as modalidades que utilizam dessa estratégia. O debate sobre sportwashing dentro do automobilismo se tornou difícil de ignorar. A categoria, que se orgulha de estar na vanguarda da inovação, tem corrido para dentro dos braços de governos, com históricos graves de violações de direitos humanos. Na Arábia Saudita, o Grande Prêmio chegou embalado pela Visão 2030, o grande projeto de modernização do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman. O discurso é sofisticado: abertura econômica, turismo, entretenimento. Mas esse mesmo príncipe é apontado por agências de inteligência americanas como o responsável pela autorização do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, morto dentro do consulado saudita em Istambul em 2018. A Fórmula 1 chegou quatro anos depois. Ninguém precisou fingir que não sabia.

Nem todos dentro da Fórmula 1 ficam em silêncio. Lewis Hamilton e Sebastian Vettel tornaram-se as vozes mais incômodas do paddock, usando sua visibilidade para denunciar aquilo que a categoria preferia ignorar. Ao ser questionado sobre os direitos humanos nos países anfitriões, o heptacampeão Hamilton se manifestou sobre o assunto para o The Guardian: “Há problemas em todo o mundo, mas não acho que deveríamos ir a esses países e simplesmente ignorar o que está acontecendo nesses lugares, chegar, nos divertir e depois ir embora.”.

Piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton. Foto Flickr

O jornalista Fernando Schwabe, da TNTsportsBR, explica à Agenzia: “O esporte deixou de ser só competição: virou ferramenta de poder, usada para maquiar violações, suavizar regimes e vender ao mundo uma imagem que não corresponde à realidade”. 

Sportwashing nas Olimpíadas 

As Olimpíadas nasceram com o ideal de reunir nações em torno da paz, do fair play e da celebração do esporte, mas, desde os Jogos Olímpicos de Berlim 1936, também têm sido utilizadas por governos para fins políticos, como melhorar sua imagem internacional, desviar a atenção de violações de direitos humanos e construir narrativas de legitimidade. Devido à sua audiência global, ao simbolismo de fraternidade entre povos e à capacidade de monopolizar a atenção da mídia internacional, os Jogos tornaram-se um instrumento estratégico de projeção de poder. Em Berlim, sob o comando de Adolf Hitler, o evento foi planejado como vitrine do regime nazista, com a suavização temporária de sinais de perseguição e uma construção cuidadosa de imagem que gerou uma percepção distorcida da realidade alemã, mesmo diante de contradições como as vitórias do atleta negro norte-americano Jesse Owens.

Luz Long, atleta alemão de atletismo, na cerimônia de premiação do salto em distância dos Jogos Olímpicos de 1936 ao lado de Jesse Owens. Foto Wikimedia Commons

Esse uso político não ficou no passado. Em edições recentes, como Pequim 2008 e 2022 e Sochi 2014, países-sede foram criticados por violações de direitos humanos, enquanto utilizavam os Jogos para reforçar uma imagem positiva no cenário internacional. 

Manifestação de tibetanos e uigures em frente ao Portão de Brandemburgo, em Berlim, contra os Jogos Olímpicos de Pequim 2022. Foto C. Suthorn/Wikimedia Commons

Embora o Comitê Olímpico Internacional defenda a neutralidade, ao conceder a países com histórico de violações o direito de sediar o evento, acaba oferecendo uma plataforma global que pode ser instrumentalizada politicamente, evidenciando que a relação entre esporte, política e imagem internacional permanece central nas Olimpíadas contemporâneas.

As mídias sociais e os atletas 

Hoje esse processo ganha novas camadas com a atuação direta de atletas e o papel das redes sociais. Estabelecendo uma relação direta com o público por meio das redes sociais, atletas atuam como pilar essencial no sportwashing, tirando a atenção das questões problemáticas de um país e mudando a narrativa para que fique a favor destes. 

O jornalista esportivo da Band, João Pedro Teixeira, explica que do ponto de vista de quem a pratica, a estratégia de sportwashing tem se mostrado eficiente, sobretudo no caso da Arábia Saudita, que vem investindo pesadamente no futebol e utilizando a chegada de estrelas como Cristiano Ronaldo e Sadio Mané como vitrine do suposto progresso do país. Em entrevistas, o atacante português reforça essa narrativa ao destacar a qualidade de vida no país e o bem-estar de sua família, contribuindo para a construção de uma imagem positiva no exterior.

Fica claro, portanto, que o atleta vira uma espécie de “vitrine” do país, e colabora no trabalho de limpeza de imagem, especialmente com o impulsionamento das redes e da mídia. Teixeira disserta que, como toda estratégia de comunicação atualmente, as redes sociais também são importantes para o sucesso da propaganda feita por esses regimes. Ele aponta ainda que, hoje, a projeção individual da imagem dos atletas é alavancada por conta das redes e, quando eles a utilizam para mostrar sua vida de luxo e tranquilidade na Arábia Saudita, por exemplo, isso contribui para a veiculação de uma imagem positiva do país.

O jornalista adiciona que esse não é o único fator que ajuda a explicar o sucesso dessa estratégia. Ao comprar clubes que disputam torneios relevantes na Europa (como é o caso de Manchester City, Newcastle e PSG), promover grandes eventos e atrair grandes estrelas ao seu país, esses regimes mantêm o seu nome ligado a atributos positivos tanto na mídia tradicional como nas redes sociais.

A Fórmula 1 se mostra como um exemplo claro do impacto que a internet pode ter no esporte. Com uma crescente presença nas redes sociais, tanto por parte dos pilotos quanto dos apoiadores que reportam os acontecimentos e destacam seus favoritos, a categoria se firmou com a maior base de fãs em 2025, com 827 milhões de pessoas, 12% a mais do que no ano anterior, de acordo com os números de revisão da temporada do ano passado. Além disso, o engajamento no esporte aumentou significativamente, com um valor total de interações de 2,3 bilhões, e um número final de 114,5 milhões de seguidores acumulados nas redes, 19% a mais do que em 2025. 

Fica cada vez mais claro que o sportwashing vem se tornando uma prática eficaz para países que pretendem redirecionar a percepção global sobre eles. “Esse mar de ‘coisas boas’ passa a conviver (e muitas vezes substituir) com as notícias negativas ligadas a essas nações.”, esclarece João Pedro Teixeira, “É claro que essa propaganda positiva não vai impedir, por exemplo, que as mazelas desses locais sejam relembradas e voltem ao debate público em circunstâncias extremas, como o cenário de guerra vivido desde o início do conflito entre Estados Unidos e Irã, mas, a longo prazo, ela tem se mostrado efetiva.”

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Tony Queiros Regina