quinta-feira

9-abril-2026 Ano 2

Como a imagem da mulher é usada na pornografia artificial

Uma análise geral sobre o uso da IA para o assédio digital e de que modo isso contribui para a perpetuação do pensamento machista na sociedade.
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No início de 2026, o Grok, ferramenta artificial generativa do bilionário Elon Musk, apavorou o mundo. Por meio de “brechas”, qualquer usuário podia criar imagens irreais e até despidas de pessoas. Bastava enviar a foto e digitar um comando malicioso e a IA produzia o crime. Não demorou para que imagens de mulheres se espalhassem na internet. Essa falta de restrição no programa ocasionou diversos danos às vítimas desse abuso. E Musk teve, no máximo, sua imagem arranhada.

A pornografia artificial é fruto da falta de regulação na internet. E ela tem ampliado o consumo desenfreado tanto de pornografia quanto de IAs que não têm freio para violar as leis. Uma jovem estudante, que preferiu não ser identificada, deu entrevista à Agenzia, lembrando seu drama particular. Tudo começou quando recebeu um link de uma conta aleatória pelo TikTok com um nome estranho. Ela decidiu checar. “Criaram um grupo no Telegram, me mandaram, lá estavam as fotos com meu nome e com montagens de outras meninas nuas. Cliquei e vi tudo”, disse. 

“Senti impotência por não saber quem fez e há quanto tempo vinha acontecendo. Havia fotos antigas minhas; eram as minhas fotos do Instagram e isso aumentou a paranoia”, complementa a vítima. Ela ainda tenta entender o que se passou, mas imagina que tenha sido a própria pessoa que criou o grupo que enviou o link o autor desse crime. 

O upgrade do patriarcado

Mas não se pode considerar a IA como o culpado exclusivo da pornografia artificial. Não se pode perder de vista que há dois lados para essa tecnologia existir: a do desenvolvedor e a do usuário. Para criar um sistema em que uma IA obedece à comandos humanos, é preciso uma grande equipe de criadores e desenvolvedores que treinam essa tecnologia. Porém, muitos desses donos de grandes empresas não admitem ou, após muitas pressões, alteram de forma superficial as normas de suas tecnologias de linguagem generativa – como foi o caso da Grok. 

A raiz não está no avanço tecnológico, mas porque essa sociedade gira em torno do patriarcado e da misoginia. O corpo da mulher é o principal objeto de prazer e engajamento, tudo o que as redes sociais mais desejam. Visto desse ângulo, a IA é apenas mais uma ferramenta que facilita o processo de criação desses conteúdos, alimentando novas formas de abusos e violências; como a pornografia artificial.

Disseminação online 

O problema é que quando uma foto é alterada por inteligência artificial para simular nudez, não é só uma “montagem”. A vítima perde o controle da própria imagem e pode sofrer com exposição, medo e vergonha. 

Imagem de um celular aberto no aplicativo Telegram
Foto: Gabriela Marques/ Agenzia

Aplicativos – como o Telegram – ajudam a espalhar esse tipo de teor. Por lá, é fácil criar grupos, compartilhar links e manter certo anonimato. Em pouco tempo, imagens falsas podem alcançar muita gente, sem controle. 

Os denominados “tributes” também fazem parte disso. São conteúdos que usam fotos – em sua maioria – de mulheres, muitas vezes tiradas de redes sociais, em contextos sexuais manipulados pela IA (deixando a pessoa nua ou diminuindo sua roupa). 

Os participantes desses grupos (de “tributes”) anônimos filmam seus atos sexuais “em tributo” à foto da pessoa em uma tela de algum dispositivo (celular ou computador) e compartilham entre si; reproduzir e repercutir é o que fazem. Eles perpetuam essa cultura ilegal da pornografia artificial.

Como denunciar a pornografia artificial

Por ora, a única arma que as mulheres têm é denunciar esse tipo de crime. O que não deixará de ser um novo processo doloroso. “Olha, primeiramente, a vítima tem que colher o máximo de evidências, vasculhar a página inteira e procurar a delegacia para gerar o boletim de ocorrência, a fim de remover todo esse material das redes de computadores.”, respondeu o delegado Emerson da Silva Abade, de Terra Roxa, interior de São Paulo.

“É bom procurar por um psicólogo já que a pessoa pode ter um trauma ali, é uma violação psicológica e moral, prevista na Lei Maria da Penha – violência psicológica contra a mulher. Eu, particularmente, sugiro passar o máximo de imagens para conseguir localizar o autor desse delito e puni-lo o quanto antes para que isso não volte a acontecer”, completa o delegado.

Ter controle das pessoas que a acompanham nas redes sociais, das fotos que você posta e gerenciar os acessos a sua conta podem ser maneiras de evitar que esse tipo de conteúdo seja criado e compartilhado sem você saber. No fundo, orquestrar e ‘ficar de olho’ são as ações mais recomendadas, enquanto medidas de regulação da IA ainda são discutidas.

Perspectivas futuras

Segundo Emerson Abade, diante da ascensão da pornografia artificial e o desenvolvimento contínuo das ferramentas usadas para a sua produção, o que se espera é uma conciliação entre a inovação tecnológica e a proteção dos direitos individuais no ambiente virtual. Só que para se combater tal violação será necessário uma lei própria para melhor garantir essa proteção, uma vez que as atuais leis são anteriores ao advento das IAs generativas. 

O Projeto de Lei 3821/24, de autoria da deputada federal Amanda Gentil (PP-MA), inclui no Código Penal (de 1947) o crime de produção e distribuição, por qualquer meio, de conteúdo de nudez ou ato sexual artificialmente manipulado, a fim de humilhar, intimidar ou constranger a dignidade particular. 

“A criação de uma lei específica é boa para o legislador constar no artigo penal que não é só produzir ou montar, é distribuir. Ou seja, quem tiver o conteúdo no celular, vai responder pela mesma pena que o autor do crime”, explica o delegado Emerson Abade.

Uma pesquisa realizada pela Universidade de São Francisco revelou as atittudes de jovens quanto a pornografia, bem como apontar as vantagens e desvantagens que ela traz nos relacionamentos e comportamentos. Esse tipo de material influencia a forma de se relacionar com mulheres, podendo fomentar discursos de desrespeito aos outros que incitam a agressão verbal ou física contra elas, àqueles que a consomem.

O peso da realidade 

É muito difícil de saber se, de fato, isso você ou alguém próximo já foi vítima da pornografia artificial. Esses grupos, apesar de serem públicos, são difíceis de serem acessados. Evitar tem se tornado quase impossível: todos tiram fotos e produzem vídeos nos dias atuais. 

Com a atual facilidade de se criar os “deepnudes”, prática que antes exigia um conhecimento sobre edição de foto ou vídeo e dos softwares que possibilitavam isso, grupos destinados à pornografia artificial têm o seu caminho facilitado. Eles se sentem “autorizados” para associar a imagem feminina à submissão e tornar o corpo da mulher puro objeto em prol do entretenimento e do prazer masculino.

Tais elementos contribuem para a perpetuação da ideologia machista na sociedade, visível em atitudes que contrariam o respeito entre os gêneros e estimulam a violência contra mulheres, o que impede se chegar a uma civilização a qual prioriza o convívio harmônico entre seus habitantes. 

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A IA foi utilizada apenas para suporte pontual, com controle editorial humano integral.

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📝 Justificativa: Utilizada na transcrição de entrevistas e para ideias de criação do título da matéria.

Anna Laura Damaceno Gomes de Oliveira

Estudante de jornalismo da faculdade Cásper Líbero. Apaixonada por livros de suspense e jornalismo investigativo.