“Eu comecei a praticar quando estava mal e queria algum alívio do sofrimento. Foi a melhor coisa que fiz da minha vida e me tirou de uma época muito ruim”.
Foi isso que motivou Diego Villela, jovem de 20 anos, entrar de vez no budismo por meio de um curso na internet. Uma das principais religiões mundiais, o budismo, no Brasil, não representa uma tendência ou febre entre os jovens. Mas Diego não está sozinho. A prática budista vem se tornando um tema relevante para a Geração Z em meio aos estímulos e polarizações das plataformas digitais.
O budismo tem perto de 250 mil seguidores no Brasil, que equivale a aproximadamente 0,13% da população. Esses dados são ainda do Censo do IBGE de 2010, mas o último levantamento, de 2022, ainda não apresenta esse recorte atualizado. Também existem 150 templos da religião espalhados pelo país. Uma interpretação possível desses dados é que o budismo se faz mais presente entre as gerações mais velhas, ou apenas de descendentes asiáticos, que trouxeram a religião para o Brasil, mas essa pode ser uma visão ultrapassada e que não leva em conta o avanço da internet na última década.
A religião surgiu na Índia, a partir dos ensinamentos de Sidarta Gautama. De acordo com o budismo, ele presenciou o mundo pela primeira vez como adulto após uma juventude trancado em seu castelo, e vendo todo o sofrimento e dor de seu povo, decidiu embarcar em uma jornada para encerrar a dor da humanidade.

A Geração Z cresceu em um mundo com mudanças climáticas, capitalismo tardio e uma realidade pós-pandêmica onde interações sociais tiveram seus fundamentos mudados, fazendo com que muitos jovens se sintam “roubados” ou “enganados”. É aí que eles procuram diferentes maneiras para lidar com essa realidade. Hobbies e interações sociais fazem parte, mas as religiões também acabam servindo de refúgio.
Com o excesso de estímulos presentes no mundo atual muitos jovens estão apresentando déficits relacionados ao foco, afetando atividades como o estudo, trabalho e até momentos de lazer. O budismo tem sido encarado, assim, como uma ferramenta para combater esse problema. O budismo propõe uma forma de viver com menos impulso. A principal prática é a meditação, que incentiva o foco e a perda de distrações simples, usando-a para atingir paz interior e disciplina. Com o tempo esse costume se reflete em outras áreas da vida, facilitando o foco em tarefas que exigem maior concentração e reduzindo a distração gerada pelas telas.

Um dos principais conceitos budistas pregados é a atenção plena. Essa prática consiste em estar presente no momento atual, percebendo pensamento, emoções e ações sem julgamento. Aplicando essa ideia nas redes sociais, o jovem passa a utilizar a rede de forma mais consciente, evitando assim o comportamento instintivo de desatenção, sem um propósito definido, o chamado “doomscrolling”. Isso permite à pessoa retomar o controle sobre suas escolhas, reduzindo também o tempo gasto de maneiras improdutivas.
Na prática da meditação, existe o conceito de “descansar em consciência”, o que muitos chamam de “mindfulness”, cujo objetivo não é tentar ignorar o mundo a fora, mas observar ao seu redor e meditar ainda que rodeado por barulhos ou eventos. Esse método permite maior calma e concentração no dia a dia, já que o praticante é treinado a ignorar elementos desnecessários do cotidiano.
Outra noção existente é a compreensão do desejo e do apego, no qual acredita-se que o sofrimento humano está ligado ao apego excessivo. No contexto digital, isso pode ser observado no simples gesto de verificar uma notificação, buscar aprovação por meio de “likes” ou evitar a sensação de “estar por fora”. Ao conhecer esse impulso o indivíduo constrói maior autocontrole e passa a lidar melhor com a constante ansiedade causada pelas redes.
O Caminho do Meio contra o extremismo
Em uma internet marcada por discursos de ódio e polarização, o budismo propõe o “Caminho do Meio” como uma estratégia de equilíbrio. A diretriz filosófica sugere que o sofrimento emocional está ligado aos excessos, tanto no desejo desenfreado quanto na aversão absoluta. No ambiente digital, isso se aplica ao controle dos impulsos e das reações instintivas.
“O Caminho do Meio é a base de todo ensinamento de Buda. A mente perde o equilíbrio e fica cega quando cai nos extremos: o apego ao que é atrativo ou a repulsa ao que é provocativo”, explica a monja Anni, do Templo Sherab Ling, de São Caetano do Sul.
Diferente da busca pelo “Nirvana”, que a religião projeta como um objetivo de longo prazo, a prática cotidiana foca na conciliação realista de desejos. O objetivo é evitar que o indivíduo seja dominado pela ansiedade de possuir algo ou pela cegueira do ódio, promovendo uma conduta mais racional diante dos estímulos externos.

Budismo nas Redes
As plataformas digitais suportam não apenas meios de separação, mas também é possível encontrar nelas comunidades budistas, que valorizam, acima da repercussão sensacionalista e da pavimentação de agrupamentos radicais e herméticos, o debate democrático e reflexivo. O budismo, embora ainda algo que não explodiu em popularidade, é presente nas redes sociais e atinge a geração Z de forma moderada. Se o budismo crescerá ou será esquecido com o tempo é algo difícil de prever, mas a internet e os jovens podem ser a resposta para seu futuro.
Nas redes sociais, equívocos em relação ao que se entende por meditações, ensinamentos e filosofias budistas podem ser comumente encontrados. Diego diz que pessoas da Geração Z esperam muito por uma coisa religiosa quando descobrem o budismo, mas o núcleo da religião é um método para se livrar do sofrimento e viver plenamente.
Muitas vezes, também, pessoas interessadas não conseguem ultrapassar a barreira da curiosidade. Diego salienta a importância de entrar aos poucos nesse universo, seja pelo meio mais prático ou teórico, mas sempre seguindo o caminho do meio.
Este conteúdo foi produzido integralmente por humanos, sem uso de IA em nenhuma etapa.