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10-abril-2026 Ano 2

A moda veste mulheres, mas homens definem as regras

Entre discursos de empoderamento e padrões invisíveis, a moda se apresenta como espaço de liberdade e expressão, mas, por trás das tendências, ainda dita regras, molda corpos e reforça expectativas sobre o que é ser mulher de fato.
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Apesar de propagar liberdade, a indústria da moda ainda se apoia em antigas estruturas de poder. Enquanto os padrões estéticos, como os impostos pela Victoria’s Secret, controlam os corpos femininos, os homens continuam a ocupar a maioria dos cargos de liderança. Em face desse machismo estrutural e da herança histórica de controle sobre o vestuário feminino, é fundamental questionar: quem, de fato, decide o que elas vestem, e quais são as motivações por trás dessas escolhas?

Quantas vezes, ao provar uma roupa nova, você se questiona sobre a lógica daquela peça? Entre mulheres, é muito comum que, ao se depararem com uma peça de roupa disfuncional e que não se adapta aos diferentes corpos femininos, o primeiro pensamento seja: “isso foi feito por um homem”.

Há séculos, as mulheres são vítimas de opressão e imposição externas pela objetificação de seus corpos, que por muito tempo a supremacia patriarcal subjugou e limitou. Nesse sentido, a saia era praticamente uma obrigação, o comprimento até o chão não era apenas uma escolha estética, mas um símbolo de moralidade, porque quanto menos pele exposta, mais a mulher era respeitável e bem vista perante a sociedade, uma ideia totalmente ligada aos valores “respeitáveis”.

A partir do século 20, motivadas pelas guerras mundiais, elas passaram a conquistar os espaços de trabalho, antes ocupados apenas por homens, houve uma quebra de padrões nos trajes femininos, sendo necessária a diminuição da saia para os tornozelos e depois para as panturrilhas. Entretanto, foi nos anos 1960 que uma revolução aconteceu, as minissaias chegaram representando liberdade e autonomia para mulheres. As que adotavam esse novo estilo eram vistas como provocativas/inadequadas, ou seja, o comprimento não era o problema, mas a forma que a sociedade enxerga o corpo feminino. 

Para a estudante de design de moda Isadora Barros, da Faculdade Belas Artes, o mercado, ainda que majoritariamente seja consumido, engajado e preenchido com mão-de-obra feminina na produção de base, é pautado no machismo estrutural.

“Como que um homem vai entender mais do que uma mulher sobre o próprio corpo e o que ele precisa? É uma construção da nossa sociedade, vai estar enraizado na minha profissão.”, disse.

Surge, então, o questionamento: por que a moda com foco no público feminino ainda é pensada e construída por homens?

Os papéis de gênero tradicionais da sociedade impõem a ideia de que, quando homens e mulheres fazem a mesma coisa, ela é definida de formas diferentes dependendo de quem a faz. Por isso, quando um homem entra no cenário fashion, a percepção da população sobre certo produto, coleção ou marca muda. Ganha, além de importância, seriedade e notoriedade, validação. 

Comparação do tamanho dos bolsos masculino (à esquerda) e feminino (à direita) – Gabriela Abrahão/Agenzia

Em uma indústria feita para mulheres, homens ocupam mais de 70% dos cargos de liderança, especialmente nas grandes marcas de luxo, limitando a maioria da força de trabalho feminina à confecção e produção

Análise feita pela 1granary mostra que cerca de 75% de quem cursa moda pelo mundo são mulheres. Mas apenas 12% têm a oportunidade de serem diretoras criativas de grandes marcas. Bárbara Cardoso, influenciadora e estilista formada no Instituto Europeu Di Design, afirma em entrevista à Agenzia como vivenciou essas estatísticas. Na sua turma, ela lembra, os alunos já tinham empregos melhores que as outras alunas.

“Tinham no máximo dois homens lá. Eles conseguiam empregos mais fácil. Eu trabalhava para uma ‘stylist’ e meu amigo para as revistas. Eu me perguntava ‘como?’, se a gente estudava as mesmas coisas”, relata. 

Tais fatos evidenciam uma herança sexista, que permeia o universo fashion, e a forma que o potencial feminino ainda luta constantemente em busca de oportunidades e reconhecimento dentro do mercado.

A tal da padronização

A padronização corporal na indústria da moda opera como uma engrenagem fundamental do machismo estrutural. Para Isadora Barros, esse sistema historicamente tratou a mulher como um objeto passivo, onde “as modelos eram cabides” e a subjetividade era anulada em prol de uma estética rígida. 

Tal cenário atingiu seu ápice simbólico com a era das “Angels” da Victoria ‘s Secret, que, iniciado no ano de 1998 e perdurou por décadas, consolidou um ideal inalcançável de perfeição. Esse padrão exigia regimes e treinos extenuantes para que as modelos se encaixassem em uma estética que priorizava o olhar do homem (*male gaze*), vendendo uma ideia de feminilidade que excluía a imensa maioria das mulheres reais.

Croqui feito por Caio Oliveira

Ela também ressalta que essa imposição é cíclica e punitiva: quando a sociedade avança na aceitação da diversidade, o mercado reage retomando a “magreza extrema”. Ao manter mulheres em constante insatisfação com o próprio corpo, a indústria sustenta um modelo que lucra com a insegurança.

A padronização não é acidental, mas deliberada. Quando a grife Victoria’s Secret tentou reformular sua marca após críticas, ficou evidente a dificuldade de abandonar um padrão baseado na objetificação. Isadora também aponta, a moda ainda é um espaço onde “o topo da pirâmide é masculino”, e enquanto o corpo feminino for tratado como suporte para roupas excludentes, a indústria seguirá “atacando minorias de forma velada”. A ruptura exige vestir corpos reais, reconhecendo que a beleza não cabe em padrões limitados.

O controle não desapareceu, apenas mudou

Se antes era explícito, atualmente o controle é mais sutil. Para a stylist Isabelly Soares, o mundo fashion vive uma contradição: “Hoje eu enxergo a moda como um espaço contraditório. Ao mesmo tempo em que abriu espaço para discussões sobre identidade e liberdade, ainda carrega estruturas antigas sobre o que é considerado adequado.” Na entrevista à Agenzia, ela disse que, apesar dos avanços, as bases permanecem. “A roupa ainda interfere na forma como uma mulher é percebida em termos de respeito, credibilidade, desejo, competência e até moralidade.”

Na indústria como um todo, as mulheres produzem, mas não decidem. Não ocupam cargos de liderança. E mesmo quando chegam a posições mais altas, o desgaste continua:

“Ainda temos que encontrar brechas para ocupar um lugar que é nosso. Quem tem mais propriedade para fazer roupa para mulher do que a própria? Vamos ter que continuar gritando para sermos ouvidas”, reivindica Isadora Barros. 

Autores

  • Sou Isabelly Senra, estudante de jornalismo da Cásper Líbero, gosto de escrever sobre relações entre sociedade e moda.

  • Sou Gabriela Abrahão, estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero e contribuo como repórter da Agenzia.

  • Estudante de Jornalismo da Cásper Líbero.

  • Sou estudante de Jornalismo na Cásper Líbero. Integro no projeto Agenzia e, estou interessada em narrativas digitais e pautas voltadas para o público jovem.

  • Maquiadora e estudante de jornalismo na Faculdade Cásper Libero. Repórter do agenzia e interessada em pautas de política, sociologia, história, futebol e mundo da beleza.

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Isabelly

Sou Isabelly Senra, estudante de jornalismo da Cásper Líbero, gosto de escrever sobre relações entre sociedade e moda.