sexta-feira

10-abril-2026 Ano 2

(Des)Inteligência artificial? O Poder de Influência da Tecnologia nas Eleições de 2026

Em plataformas digitais, a incorporação e o uso de inteligências artificiais para fins informativos são práticas recentes entre os usuários. Mas sua normalização põe em xeque os princípios da democracia digital - e, com eles, a transparência política do processo eleitoral.
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Ferramentas como ChatGPT, Gemini e Grok (inteligência artificial do X) já são utilizadas por milhões de usuários para confirmar dados, interpretar acontecimentos e até tirar dúvidas do dia-a-dia (“Vai chover?”, “Dá para tirar o tarot?”, “O que posso tomar para dor de cabeça?”). Mas será que dá para confiar numa IA para checar informações políticas? Em ano eleitoral? Com respostas rápidas, linguagem acessível e aparente objetividade, o uso da inteligência artificial nas eleições levanta uma dúvida necessária: quem vai garantir a veracidade — e a neutralidade — dessas respostas?

“Podem mudar, sim. Uma mentira viraliza em minutos. Porém a checagem manual leva horas, às vezes dias. Nesse sentido, a automação da checagem pode reduzir essa janela de vulnerabilidade”, afirmou o professor, palestrante e consultor especializado em marketing político e eleitoral Marcelo Vitorino.

Há 6 meses de mais um período eleitoral, os desdobramentos do cenário político no País vão envolver mais do que candidatos e eleitores. A inteligência artificial já exerce influência direta sobre o debate político. Diferentes pautas vão entrar em cena, como a questão da segurança, da economia ou saúde. Mas um em particular tem o poder de conturbar tudo: o uso das IAs de forma desenfreada.

Em meio ao avanço da inteligência artificial nas eleições, propagandas e debates políticos, o deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP) vê com preocupação os riscos que a tecnologia pode trazer para as eleições de 2026. Relator do chamado “PL das Fake News” na Câmara, ele aparece como uma voz de destaque por já atuar há anos no debate sobre desinformação, plataformas digitais e responsabilização no ambiente online.

“Uma medida fundamental é tratar o uso de deepfakes como uma ilegalidade comparável ao abuso de poder de comunicação, que pode resultar na cassação da candidatura e em prejuízo alheio”, afirmou, em entrevista exclusiva à Agenzia. “Isso pode fazer com que grupos intencionados em influenciar no processo eleitoral através de deepfakes, disseminação de fake news ou outras práticas criminosas temam o custo político.”

Desinformação e má circulação de fatos

Em um ecossistema digital marcado pela velocidade e pelo compartilhamento impulsivo, a desinformação encontra terreno fértil — sobretudo quando se apresenta por meio de imagens, vídeos ou áudios.

Alexandre Russi, especialista em ciência de dados e IA, em entrevista exclusiva aos autores do Projeto Agenzia – Foto: Luiza Battaglini/Agenzia

Para Alexandre Russi, especialista em ciência de dados e IA, um dos pontos negativos do uso da inteligência artificial nas eleições, está relacionado menos à tecnologia em si e mais à forma como a informação é consumida socialmente.

“O ‘brasileiro médio’ é a parte da população que menos analisa a informação. Quando ele vê qualquer tipo de texto, foto ou imagem, ele não vai atrás de onde veio essa informação, se é uma fonte confiável. Ele pega essa informação e vai começar a espalhar”, alerta.

Cada vez mais o aumento da desinformação pela propagação de vídeos enganosos no meio digital se torna recorrente – em um ano de eleição, estes números tendem a aumentar de forma significativa. Russi também observa que, para uma parcela significativa da população, o debate ideológico aparece em segundo plano diante de preocupações concretas do cotidiano.

Além dos fatores negativos, o uso da IA pode ser encarado de forma positiva, na medida em que seja compreendida em seu funcionamento básico. Com o entendimento dessa base, uma transparência é acomodada para ser utilizada na checagem de conteúdos, com fins benéficos para a veracidade da temática apresentada.

“A IA generativa funciona com base estatística e na obtenção de conhecimentos variados da internet.”diz Russi. Isso significa que suas respostas podem soar convincentes mesmo quando estão incompletas ou enviesadas. Em ano eleitoral, esse aspecto exige cautela redobrada: a aparência de neutralidade técnica não elimina os riscos políticos da automação.

Os limites da regulamentação eleitoral

O Tribunal Superior Eleitoral, na Resolução 23.760, manteve a permissão para o uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral, mas sob regras de transparência e restrições específicas. Conteúdos sintéticos produzidos ou manipulados por IA devem trazer aviso claro de que foram fabricados ou alterados, além da indicação da tecnologia utilizada. O uso de deepfakes (conteúdos falsos criados com IA para imitar, de forma convincente, a imagem, a voz ou os gestos de uma pessoa) e conteúdos manipulados na propaganda eleitoral, por sua vez, são expressamente proibidos.

A Corte Eleitoral também endureceu restrições no final da campanha e vedou que sistemas de inteligência artificial de plataformas digitais recomendem ou priorizem candidaturas nas eleições. O descumprimento das normas pode resultar em retirada do conteúdo, configurar abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, com possibilidade de cassação de registro ou mandato, além de outras medidas judiciais cabíveis.

A disputa eleitoral de 2026 não será travada entre partidos, candidaturas e projetos de país, mas também entre diferentes regimes de verdade: o da informação verificável, o da persuasão automatizada e o da realidade sintética. Em um cenário assim, preservar a integridade do processo democrático depende não só de tecnologia e regulação, mas também da capacidade crítica de quem consome, compartilha e acredita.

Democracia digital sob pressão

O ambiente digital ampliou a participação dos cidadãos no debate público. Redes sociais permitiram acesso mais rápido à informação e novas formas de engajamento político. Na prática, esse mesmo espaço também se tornou vulnerável à lógica da hipersegmentação, da manipulação e da circulação de conteúdos falsos em larga escala.

A IA acaba aprofundando problemas que já estavam presentes no ambiente online: a desinformação, a opacidade dos algoritmos e a fragilidade da educação midiática. O risco, portanto, não está apenas na ferramenta, mas na combinação entre inovação tecnológica acelerada e seu uso irresponsável. 

Para Marcelo Vitorino, não foi a inteligência artificial que inaugurou a crise de confiança no debate público — mas ela a intensificou. E, ao fazer isso em pleno processo eleitoral, pressiona instituições, plataformas e eleitores a redefinirem o que entendem por transparência, responsabilidade e participação democrática.

Para o marqueteiro, há limites importantes nesse processo que envolve o futuro de uma nação. “Quando você coloca uma máquina para dizer o que é fato e o que é falso, você está transferindo uma decisão complexa para um algoritmo. E algoritmos têm vieses. Isso não é um problema técnico, é um problema político.”

Vitorino também chama atenção para a desigualdade de alcance entre o conteúdo falso e a correção posterior. “Quando uma informação falsa é corrigida, a correção precisa ter a mesma visibilidade que o erro original. Sem isso, checagem automática vira aspirina: trata o sintoma, não a causa.”

A mesma tecnologia que promete frear a desinformação também pode reforçar disputas narrativas sobre quem tem autoridade para definir o que é verdadeiro.

Autores

  • Laura Bavelloni Gonçales

    Estudante de Jornalismo na Cásper Líbero. Interessada em entretenimento, política, cultura e esportes.

  • Luiza Mariano Pereira Battaglini

    Repórter AGenZIA, estudante de jornalismo Casper Líbero. Apaixonada por fotografia, cultura e política.

  • Lucas de Magalhães Pereira
  • Manuela Mercadante de Souza

    Estudante de jornalismo na faculdade Cásper Líbero, apaixonada por cultura pop e pelo mundo do entretenimento.

  • Estudante de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero e autora pelo Projeto Agenzia. Expresso o que penso e sinto por meio das palavras e tenho uma grande paixão por externar aquilo que não se consegue dar voz, facilmente, por outras formas de comunicação. O que me encanta no Jornalismo é seu compromisso com a democracia, o público e a sociedade - e, junto deles, a possibilidade de contar e dar espaço a diferentes histórias.

  • Estudante de jornalismo, dividida (ou talvez somada) entre a publicidade e a fotografia. Escrevo sobre o que vejo — e sobre o que passa despercebido.

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UTILIZAÇÃO DE IA
Autoria Humana Exclusiva

Este conteúdo foi produzido integralmente por humanos, sem uso de IA em nenhuma etapa.

Laura Bavelloni Gonçales

Estudante de Jornalismo na Cásper Líbero. Interessada em entretenimento, política, cultura e esportes.