Nas dependências do Centro de Referência e Tratamento em Aids (CRTA), no 10º Encontro de Pacientes, nasce uma ideia que mudaria de uma vez por todas a integração de pessoas soropositivas entre si e na sociedade. José Roberto Peruzzo, advogado que viveu com HIV e um dos fundadores o grupo, recebia os soropositivos em sua própria casa para, além de redescobrir a vida e o modo como eram tratados os soropositivos durante a epidemia, buscar alternativas para prevenção e controle do desenvolvimento da doença e outras ISTs.
E o sonho continuou crescendo. A notícia de um local em que as pessoas que viviam com HIV podiam se reunir atraiu mais e mais pessoas, tomando proporções que os fundadores nem podia imaginar. Como uma doação em 1993, receberam a casa localizada na Vila Mariana, agora sede da GIV. Hoje, 34 anos depois, a ONG possui diversos projetos com a comunidade, acolhendo pessoas soropositivas que precisam de apoio para conseguir entender que existe vida após o diagnóstico.

Ricardo Tomio, voluntário da ONG há mais de 15 anos, que trabalha com o núcleo de jovens de até 29 anos, explica que o público atendido pela GIV sofreu modificações com o tempo, acompanhando o perfil da epidemia: “No começo era as crianças que viviam com HIV a partir de transmissão vertical, que eram aquelas infectadas da mãe para o filho, aí tinha um grupo de familiares, depois começou vim os adultos gays e depois começou vim os jovens”.
No último levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS), feito em 2020, indicam que mais de 1 milhão de novos casos de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) são registradas diariamente no mundo, em pessoas de 15 a 49 anos.
A epidemia nas redes
Mas, mesmo em meio aos avanços no diagnóstico e no tratamento delas, uma coisa ainda preocupa: a diminuição do uso de métodos contraceptivos como os preservativos, relacionado ao crescimento de casos nos últimos anos.
A internet e os meios de comunicação passaram a ter um papel vital para a disseminação de informações sobre as mais diversas ISTs, do tratamento ao diagnóstico. É importante que o público tenha acesso à informação livre de conteúdos falsos, incorretos e sem informações confiáveis.
“Qualquer coisa que você “põe” você acha uma informação, boa ou mal você vai achar, vai de você discernir o que é bom e o que não é […], essa é uma das dificuldades que a gente encontra”, afirma Ricardo.
É necessário que seja feita uma busca por dados confiáveis, como parte da prevenção, além de enfrentar ideias equivocadas que circulam entre os jovens. “Essa história de que os jovens não se cuidam por causa de medicação, porque tem medicação ninguém vai morrer, é um discurso que sempre tem”, diz o voluntário. Onde essa percepção leva à falta de uma prevenção correta, o que pode levar ao aumento de incidência de casos e aumentando os riscos relacionados à saúde.
As ISTs e a proliferação da informação
Os casos de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) apresentam um crescimento gradual ao longo de todo o ano. No entanto, o debate público e a relevância sobre o tema costumam ficar restritos à dois eventos específicos: o Dia Mundial de Luta Contra a Aids (1º de dezembro) e o período do carnaval. A preocupação é legítima. Durante o carnaval deste ano, em Salvador, foram registrados 288 casos de ISTs em postos de testagem montados na cidade.
No Brasil, o acesso à prevenção e aos tratamentos é rápido e gratuito. Os serviços estão disponíveis prioritariamente nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e em toda a rede do Sistema Único de Saúde (SUS). Além disso, há lugares estratégicos levam esse acesso à locais de grande fluxo, como estações de trem e metrô, expandindo o acesso democrático à prevenção.

Muitos jovens possuem acesso à informação, sobretudo pela internet, mas a maior dificuldade está no filtro desses conteúdos. “Você tem que saber abordar o adolescente para que ele saiba acatar a sua informação, não adianta ele ter a informação e não a utilizar de forma correta”, explica a ginecologista Mariliz de Mello.
Parte fundamental no modo no qual a informação será digerida, é a contextualização. Ademais, estudos demonstram que jovens cuja principal fonte de informação sobre sexualidade são os pais, profissionais da saúde ou professores apresentam níveis mais elevados de conhecimento sobre o tema, mostrando que orientações superficiais nem sempre são as melhores estratégias.
Avanços nos tratamentos desde a epidemia nos anos 1980 também contribuem com a negligência da prevenção. Ao considerar a doença como algo “tratável”, o medo do contágio é relativizado. “As gerações anteriores viram seus ídolos morrerem por doenças, hoje não. Isso faz com que eles tenham menos medo do que quando antigamente”, diz Mariliz.
Um estudo da SCImago Institutions Rankings traz o relato de um jovem de 22, classe popular, que se diz consciente da doença e sempre evita o contágio com o vírus. “Mas se contraísse também não seria um problema porque eu sei dos tratamentos que existem hoje. Não quero contrair”. A pesquisa feita pelo instituto, revelou que a AIDS é uma “doença que não tem cara”, fazendo com que seja impossível identificar o portador, independentemente da idade e gênero.
A confiança e o paciente
Outro estudo realizado em comunidades rurais de Ouro Preto (MG) revelou que pessoas em relacionamentos estáveis estão entre as que menos utilizam preservativos, aumentando o risco de contrair ISTs. O estudo identificou casos de sífilis, hepatite B e hepatite C entre os moradores, reforçando o alerta para a circulação dessas infecções mesmo fora dos grandes centros urbanos.
Esses tipos de comportamento são observados por profissionais da saúde. A ginecologista e obstetra Mariliz de Mello explica que a confiança nos relacionamentos é um dos principais fatores por trás da negligência na prevenção. “Ele já acha que pode confiar e pode parar de usar preservativo, por exemplo. Isso eu acho que é o principal problema”, afirma.
Outro ponto destacado pela especialista é a falsa sensação de invulnerabilidade comum entre adolescentes e jovens adultos. “É uma coisa de adolescente de achar que nada vai acontecer com ele, que as coisas estão longe dele.”
Questões como vergonha, medo e dificuldade de diálogo entre parceiros também interferem no controle das infecções. Diante desse cenário, especialistas reforçam que a prevenção não deve depender apenas da disponibilidade de recursos, mas também da forma como a informação é transmitida e compreendida.

A IA foi utilizada apenas para suporte pontual, com controle editorial humano integral.
- ✅ Revisão/Edição: auxílio de IA