segunda-feira

26-janeiro-2026 Ano 1

Paulo Chavonga: a arte que migra além da tela

A trajetória do artista e imigrante angolano que transforma vivências em arte

Por Giovanna Rausini, Julia Camargo, Letícia Souza e Vitorya Silva

Uma porta pequena dá entrada para um ambiente tomado por cores. Localizado no bairro Vila Regente Feijó, em São Paulo, esse ateliê é o lar de telas com pinceladas vivas. É como se a mente do artista estivesse exposta para que todos vejam sua arte. Uma das pinturas de destaque é a da rainha Nzinga Mbandi, soberana dos antigos territórios Ndongo e Matamba (hoje, Angola). Ela é um símbolo da resistência ao colonialismo português. Com um manto azul e acessórios em ouro, a pele negra é tingida por um tom dourado no jogo de luzes. Em frente ao quadro, está o responsável pela obra, um homem negro, imigrante angolano. Seu rosto está inclinado na mesma direção da rainha, quase que em um paralelo. Eles parecem olhar para um mesmo lugar. Paulo Chavonga transparece o mesmo ar solene da rainha. Essas duas figuras compartilham cultura e história.


“Se a senhora comprar 12 telas para mim, vou pintar essas 12 telas. Eu vou colocar alguns preços que vão nos deixar ricos e a gente vai conseguir construir a nossa casa. Vamos mudar a vida de todo mundo”, prometeu Paulo Chavonga para sua mãe. O artista tinha 17 anos ao realizar sua primeira exposição, na Mediateca de Benguela, em Angola. A promessa não pode ser cumprida. Em 2015, a prioridade das pessoas que viviam naquele lugar não era a compra de obras de arte, mas de comida e itens básicos.

O Brasil esteve nas garras do imperialismo português por volta de 300 anos. Já Angola enfrentou a colonização portuguesa por mais de 400. Em 1975, já libertos, os angolanos enfrentaram uma guerra civil que durou 27 anos. Hoje, a economia do país não gera empregos suficientes para a população e 8 em cada 10 trabalhadores estão envolvidos em setores informais e de baixa produtividade. “O consumo de cultura ainda é algo que precisa ser educado para as pessoas”, afirmou Paulo.

O pintor Paulo Chavonga, um homem negro, está posando sentado. Ao lado dele, uma mesa branca. Sobre ela, um vaso azul escuro com uma planta pequena e verde, um jornal com a foto da sua obra "Não Recicláveis" e um livro amarelo. Atrá de Paulo, a tela da obra "Não Recicláveis", que tem um fundo amarelo, com um homem negro carregando uma ata de lixo. O homem veste uma blusa vermelha, uma calça verde, e um tênis branco. Dentro do lixo verde que carrega, armas de guerra, e uma bandeira prata e vermelha, com uma estrela amarela no centro.  A bandeira lembra a de Angola.
Paulo ao lado da obra “Não Reciclável”. A pintura retrata o trauma das gerações
angolanas que estiveram diante da guerra em Angola – Foto: Vitórya Silva/Agenzia

Mas mãe é mãe, Domingas Serrano decidiu comprar as 12 telas do filho. Paulo teve o estímulo que precisava para redigir cartas para a imprensa, gerentes de bancos e entidades políticas de Benguela, como o diretor provincial da Cultura. Iria promover um sarau com uma exposição. Poetas e músicos faziam parte da programação. Muitos angolanos compareceram. Quem não deu as caras foi a imprensa, também convidada. Tampouco outras pessoas de cargos importantes que Paulo contava com a presença delas. “Foi uma quebra de expectativas, eu era muito novo e inexperiente. Dentro do meu coração, eu queria mais”, contou o artista.

O amigo José Honório, jornalista e também artista, notou a chateação de Paulo e ligou para a Televisão Pública de Angola. Foi só uma reportagem sobre o encontro cultural. O diretor provincial da Cultura, Mário Kajiibanga, decidiu então marcar presença, por conta da matéria jornalística. Ele viu a exposição, e sentiu a vontade de dar um impulso no futuro de Paulo. Não tardou para que o jovem tivesse que lidar com as responsabilidades de seu reconhecimento e então, sua carreira recém-iniciada parecia seguir pelo rumo desejado.

Paulo Chavonga começou a pintar aos 7 anos, após acompanhar o pai, Avelino, em um dia de trabalho na Secretaria Agrícola de Angola. O pai era engenheiro agrônomo. Determinado dia, o pequeno Paulo viu Avelino desenhando um autorretrato em seu computador, em vez de realizar suas atividades cotidianas. “Naquele dia, foi tipo um start. Aquilo me despertou”, relembrou o artista. O fascínio pela arte foi crescendo em um ambiente de poucos incentivos, já que a maior parte das pessoas sonhava em trabalhar em instituições do governo. Para seu pai, o futuro do filho seria na engenharia agrícola e os desenhos o afastariam da profissão. Mas, com o apoio da mãe, o menino continuou com as pinturas, sem que Avelino soubesse. Até que os pais se divorciaram. 

Foi a mãe que levou Paulo para a primeira aula de desenho. Ele tinha 10 anos quando começou a frequentar o Núcleo de Jovens Pintores de Benguela. Cedido pelo Ministério da Cultura angolano, era o único espaço que funcionava como um ateliê na cidade. Paulo lembra que o núcleo ficava em frente ao mar da Praia Morena, onde as pessoas conseguiam caminhar e ver os artistas produzindo arte. Ele frequentou o ateliê até que as condições financeiras não permitiram mais. Porém, o fascínio pelas pinturas permaneceram.

Apesar do carinho que sentia pela cidade, Benguela passou a, lentamente, suprimir os seus sonhos. Paulo não conseguia enxergar futuro nos estudos. Morava longe da escola e, às vezes, não tinha o que comer. Seu desempenho escolar decaiu. O caminho até o ensino médio foi quase inatingível. Na medida em que o tempo foi passando, Paulo percebeu que não tinha outra forma de conseguir ser alguém na vida, senão pela única coisa que sabia fazer de melhor, a pintura.

O cenário é um recorte do ateliê de Paulo. O chão tem a cor creme, e sobre ele, uma tela de pintura. A tela tem três o corpo do que parecem ser pessoas desenhadas, contornadas de amarelo. No canto direito inferior da tela, uma mancha amarela. No canto superior direito, uma mancha rosa que está sendo pintada pelo Paulo. Ele está agachado em cócoras, e apoia o braço esquerdo no joelho, com o pincel na mão. De fundo uma cadeira branca, ao lado de um vaso marrom com uma planta pouco cheia. Um cavalete com duas telas está apoiado sobre a parede laranja
Paulo Chavonga em seu ateliê, enquanto pinta uma tela encomendada – Foto: Letícia Souza/Agenzia

As exposições começaram a fazer parte da vida do pintor. Ele viu na arte uma atividade que o traria retorno financeiro.  Em 2016, realizou sua segunda exposição individual em Benguela, Traços de uma gota de sonhos. Outras exposições foram marcadas e sua carreira parecia que ia decolar. Mas algo o inquietava: o futuro oscilante como artista em Angola. É muito desafiador viver de arte em uma cidade pequena. Foi quando Paulo começou a pensar em migrar para se aperfeiçoar. Estados Unidos, Brasil e Itália tinham as melhores escolas de artes visuais na época, e ele precisou escolher. 

Ele já tinha um vínculo no Brasil. Um ano antes da segunda exposição, Chavonga participou da Bienal de Jovens Criadores da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) em Moçambique. O evento era grande. Paulo conheceu muitas pessoas, inclusive artistas brasileiros. Aqueles contatos, ainda que rápidos, pesaram na balança no momento dele escolher seu novo destino. Com o dinheiro faturado das obras de arte, e a certeza de crescer como artista, Paulo emigrou para o Brasil em 2017. 

Paulo chegou e decidiu prestar vestibular. Conseguiu uma bolsa de 100% na Universidade Belas Artes, mas as documentações exigidas emperravam o processo. Chavonga morava no Brasil apenas com visto de turista, sem o registro nacional de estrangeiro. Como demoraria muito tempo até conseguir os papéis solicitados, Paulo optou por abrir mão da bolsa. Ele decidiu vender sua arte nas ruas da capital paulista para conseguir se estabelecer, além de dar algumas aulas de inglês.

O artista se apaixonou pela capital. Na percepção dele, o acesso à arte não se restringe às grandes galerias, o que faz com que mais pessoas consigam admirar e consumir pinturas. Paulo esperava chegar ao Brasil e encontrar um povo irmão. Em Angola, a cultura brasileira é conhecida e muito consumida. As novelas, as músicas e as gírias fizeram parte do cotidiano do pintor quando ainda morava em Benguela. Mas a realidade que Paulo descobriu foi de sujeitos que desconheciam Angola. Aqui ele era só mais um estrangeiro.

Paulo Chavonga sentado em seu ateliê, com o cotovelo apoiado na cadeira enquanto usa o celular. O ambiente é iluminado pela luz da janela, uma mesa de madeira ocupa o lugar, em cima dela estão alguns utensílios artísticos como tintas, pincéis e um notebook. Dois quadros em tons de amarelo e azul estão pendurados na parede atrás de Paulo.
O artista durante a entrevista, enquanto explicava sobre sua vinda ao Brasil. Atrás dele, seus materiais de pintura e algumas telas das expoxições “Áfrikas: Olhares descoloniais” e “Onde o Arco-Íris Se Esconde” – Foto: Vitórya Silva/Agenzia

“Isso foi uma surpresa muito grande, o que fez com que o meu caminho se tornasse um pouco mais tumultuoso”, lembrou o artista. O imaginário sobre o continente africano criado pela mídia é muito cruel. Boa parte das violências raciais sofridas por imigrantes como Chavonga resulta dessa narrativa. O artista angolano decidiu retratar isso em suas obras, mas com uma abordagem diferente.

Em 2023, foi esse compromisso que o levou a publicar o documentário Sonhos Exilados. O filme entrou em cartaz no Museu da Imigração de São Paulo. A ideia nasceu durante as caminhadas de Chavonga pelo centro paulistano. Lá, ele encontrou muitos imigrantes do continente africano, de países diferentes do seu. Quanto mais ouvia as histórias deles, Paulo percebia que compartilhavam vivências que atravessavam a cultura. “Tinha o fato dos brasileiros nos enxergarem como africanos, e só africanos. De alguma forma migrantes indesejados.”

O Brasil é marcado pela imigração. Na epóca da abolição da escravidão, o País passou por um projeto de embranquecimento da população. Eram oferecidos para imigrantes europeus, condições para moradia e trabalho em território brasileiro. O objetivo era fazer com que esses europeus fossem a “cara” da sociedade brasileira, enquanto a população negra, afrodescendente e indígena era empurrada para as margens. Uma das heranças desse “projeto” foram as narrativas de manutenção do racismo estrutural no Brasil. “Pessoas que vêm da França, Itália morar aqui, os brasileiros perguntam: ‘Mas o que você tá fazendo aqui, cara? Pra quê? Você estava na Itália’. Mas para um africano a abordagem é diferente. Esperam fragilidade e se demonstrarmos o contrário, não gostam”, ressaltou Chavonga. Ele percebeu que era importante dar voz aos imigrantes.

Embora esteja morando no Brasil, Angola continua sendo uma de suas maiores inspirações. Ao pintar crianças em cenas corriqueiras, como brincando, a motivação de Paulo é ir em contradição. “Venho de um lugar, onde geográfica e economicamente, o direito das crianças é constantemente violado. Existe muita desigualdade social, existe muita fome, mas não é só isso”, afirma. As pinturas de Paulo Chavonga apresentam um fundo neutro e colorido, em oposição à imagem de miséria sobre o continente africano construída pela mídia. Segundo ele, foi a forma que encontrou para humanizá-las, para que o espectador foque apenas na ação inocente e na expressão dessas crianças, e não no que está em volta. “É uma forma de proteger simbolicamente a minha infância.” Para Paulo, a arte é a forma mais humana de se fazer uma denúncia.

Paulo Chavonga de perfil olhando para uma de suas pinturas, o artista é negro e utiliza uma blusa de manga longa cinza, o rosto possui barba e o cabelo é crespo.

A pintura pendurada na parede é de uma criança do sexo feminino sorrindo, a criança possui traços negros apesar da pintura ter sido colorida apenas com pontos em verde, laranja, azul, amarelo e lilás, o preto apenas foi utilizado nas tranças do cabelo. Na parede, algumas vinhas de planta sobem e criam uma moldura natural para a pintura.
Paulo diante da obra “O brilho da Alma”. Uma das várias obras de Chavonga nas quais o tema permeia a infância – Foto: Letícia Souza/Agenzia

Ele também é poeta, mas enxerga pintura e escrita de maneiras distintas. A pintura é uma forma  de se expressar nas cores. O amarelo, predominante em suas telas, é a sua cor favorita. Representa a alegria e o clima quente de Angola. Nas palavras, ele se sente mais despido. “É um confessionário de coisas que me inquietam.” Sua intenção é passar essa sensação para quem tenha contato com as suas obras, gerando reflexão. Com seu repertório, ele leciona de maneira independente em seu ateliê e também no Sesc de São Paulo. “A arte não é algo que se ensina, mas algo que se revela à pessoa. É muito gostoso fazer parte da empolgação dos alunos”, compartilhou. A arte, hoje, é sua única fonte de renda. Paulo considera essa a maior conquista de sua carreira, assim como trazer sua mãe de Angola para o Brasil.

Letícia de Souza Freitas

Giovanna Rausini Julia Camargo Letícia Souza Vitorya SIlva

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