quinta-feira

9-abril-2026 Ano 2

A ridicularização dos gostos femininos: quando admirar vira motivo de chacota 

Por que os símbolos do universo feminino se tornam alvos de julgamento e o entusiasmo das mulheres é rotulado como histeria?
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Você já percebeu como os gostos femininos são constantemente ridicularizados? Quando mulheres ao redor do mundo enfrentam filas gigantes por ingressos, pensam em roupas, decoram músicas, esgotam estádios e se reúnem em frente aos shows para ouvir seus artistas favoritos, tudo isso é visto como algo “infantil” e “exagerado”. Mas homens comprando diferentes camisas de seus times, indo em todos os jogos e até brigando para defender o seu clube é algo normalizado.

Enquanto homens têm o direito do fanatismo, os gostos das mulheres são condenados. E essa diferença de tratamento não é atual e nem fruto do acaso.

A fã mulher x o fã homem 

O sentimento ao ver seu time fazer um gol e ouvir o álbum novo do seu artista favorito são muito parecidos. Porém, um é visto como algo apaixonado e o outro, “exagero”. Para as mulheres, palavras como “obsessivas”, “loucas”, “descontroladas” e “histéricas” chegam a ser empregadas. A “cultura do fã” é um dos grandes fenômenos da contemporaneidade e as “fanbases”, nome dado aos grupos de fãs, têm crescido cada vez mais. Segundo o Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa Michaelis, a palavra faz referência a uma pessoa que tem grande admiração por artistas e figuras públicas de distintas áreas culturais ou de entretenimento. 

Na esquerda há uma foto de um jogo de futebol, com torcedores na arquibancada direcionados para os jogadores em campo. À direita há uma foto do público em um show do festival Lollapalooza. As fotos se mesclam.
Contraposição dos gostos masculinos e femininos – Fotos: Kauê dos Santos e Julia Rezende/Agenzia

Em 2025, em um trecho do documentário da Superturnê, o cantor Jão, que possui um público majoritariamente feminino, trouxe o assunto à tona. O artista disse ser hipócrita a forma como homens consideram normal tatuarem brasões de time e chorarem por jogadores de futebol, mas quando as fãs fazem a mesma coisa é visto como algo exagerado.

Por que essa ridicularização acontece?

A resposta a esse tipo de comportamento é o machismo estrutural presente na sociedade. Em entrevista para a Agenzia, a doutora em sociologia Isabelle Anchieta afirma que a ridicularização dos gostos femininos não nasce na sociedade contemporânea, mas vem sendo construída ao longo dos séculos. 

O exemplo citado pela socióloga partiu do livro Reivindicação dos Direitos das Mulheres, de Mary Wollstonecraft. Para Isabelle, a autora estabelece a educação como o fundamento para a formação dos gostos. Mary explora a ideia antiga de que a educação das mulheres deveria se restringir a gostos domésticos e não a gostos públicos.

Isabelle reforça que essa educação acaba construindo uma ideia de que as mulheres deveriam ser tuteladas, e por isso são rotuladas como infantis. E muito são associadas à ideia da sensibilidade e de que seriam menos racionais e mais emocionais.

De acordo com a pesquisadora, isso gera uma ideia de uma infantilidade feminina a qual foi construída culturalmente para que as mulheres não tivessem acesso a áreas ditas públicas da sociedade e nem acesso à uma educação formal. Por muito tempo, elas foram confinadas às questões familiares e estariam sendo tuteladas pelo cônjuge dentro dessa hierarquia.

Chacota como hierarquia social

A socióloga lembra de Pierre Bourdieu, que dizia que o gosto não é só uma questão estética, mas uma questão política no sentido de definir valores e hierarquias sociais.

A questão é que, a muito tempo atrás, os gostos e as vontades dos homens foram definidos como padrão de legitimidade e tudo que foge dessa referência é desvalorizado. É aí que a misoginia assume o controle e abre-se espaço para a condenação dos gostos femininos.

Essa ridicularização não passa de mais uma forma sutil de manutenção da desigualdade e da misoginia na nossa sociedade, que tenta se disfarçar como humor ou crítica cultural, mas, em essência, continua reafirmando estruturas históricas de poder. Em vez de repúdio, isso já é algo visto como “natural”. 

Construção de estereótipos por meio de nomenclaturas 

Engana-se quem pensa que a mídia está livre dessa visão machista. Os meios midiáticos fazem acreditar em uma falsa ideia de igualdade que sustenta um sistema simbólico ao encobrir desigualdades estruturais e normalizar a misoginia que inferioriza o que é associado às mulheres. Ainda hoje, os meios de comunicação repetem comportamentos e estereótipos que reforçam a continuidade do machismo e a propagação da diferença de tratamento entre homens e mulheres.

Essa diferença de tratamento se torna evidente quando analisamos manchetes ligadas ao assunto. No estudo “Fandom e gênero: A representação dos fãs pela mídia”, Karen Juliana Miranda Stinsky realizou um levantamento do uso de palavras referentes a fãs no noticiário e a diferença de sentido entre elas: 37 notícias com a expressão “fãs obsessivas” foram analisadas e 27 para “fãs obsessivos”. Ao analisar 138 manchetes, descobriu-se que “fãs loucos” eram associados a um sentimento de alvoroço, alegria ou paixão, enquanto “fãs loucas” sugeria ações que ultrapassaram os limites, irracionais e exageradas. Para as mulheres é comum que termos como “fangirl”, tiete e fã histérica sejam usados, enquanto torcida apaixonada, torcedores fiéis, fanáticos são ligados aos homens.

A primeira matéria em comparação é de Patrick Chala para o canal Extra em 2026. Na manchete diz: “Torcedor inglês põe a casa à venda para financiar ida à copa do mundo”.

De acordo com a socióloga Isabelle Anchieta, as nomenclaturas têm poderes muito fortes e carregam uma síntese que são traduzidas em preconceitos sociais. Portanto, quando falamos “torcedor” para homens e “fanáticas” para as mulheres, indicamos essa ideia de homens racionais versus mulheres sentimentais e emocionais. Ele foi associado ao feminino por Freud, usando-o como um termo científico, mas que na realidade carrega muitos preconceitos de gênero pré existentes no psicanalista. 

A histeria feminina segundo a psicanálise

A histeria era descrita na psicanálise como uma neurose caracterizada por conflitos conscientes ou inconscientes se manifestando a partir de sintomas físicos e emocionais. Era tratada como uma patologia proveniente de um âmbito, para além do que era descrito pela medicina como uma herança hereditária biológica do natural feminino, passando a ser uma doença resultante dos papéis sociais de mulheres em uma sociedade falocêntrica e uma repressão da sexualidade. A primeira hipótese sobre a causa da histeria era relacionada às funções exercidas por mulheres, sendo elas, o matrimônio e a maternidade, situações que tornam propícios os desenvolvimentos de estados hipnoides (devaneios).

Segundo o artigo “A Histeria como mal-do-século XIX e sua marca para o legado freudiano sobre a feminilidade”, publicado na revista Psicologia USP, a teoria freudiana apresenta que a histeria feminina seria desenvolvida como “uma distribuição anormal de excitação no sistema nervoso”, uma condição curável, mas que, ainda requisitava o tratamento manicomial.

Mulheres tidas como incapazes de exercer suas funções maternas e domésticas — exceto as que ocupam as profissões femininas categorizadas como “úteis”, como professoras — eram denominadas como loucas, assim como as que mantinham gostos fora do padrão, que se sentiam melancólicas, que continham amantes ou até as que liam romances.

Muitas mulheres eram submetidas a psicocirurgias em hospícios, além de internações compulsórias que poderiam ser sentenças de vida. Muitas envelheciam por trás de muros de alas femininas de sanatórios como o de Juquery e o Colônia de Barbacena. Mantidas como animais enjaulados, suas vidas foram interrompidas por terem personalidades próprias fora dos ideais masculinos da época. 

Validade dos gostos femininos 

Mas há ainda uma ideia de que os gostos femininos possuem uma “validade”. Existe uma cobrança social para que depois de adultas, mulheres deixem suas paixões de lado e “cresçam”. Interesses considerados “infantis demais” devem ser abandonados. Mulheres adultas envolvidas em fã clubes de K-Pop, por exemplo, são ridicularizadas e até ditadas como adolescentes “mal resolvidas”. Já homens que jogam videogames aos 30 anos podem chamar esse ato de “hobby” ou “momento de distração”.

Mulher, com vestido dourado de franjas, faz pose levantando os braços para cima. Ela está presente no festival de música Lollapalooza.
Mulher se diverte em festival de música – Foto: Maysa Sevaroli/Agenzia

Segundo a socióloga Isabelle, essa questão é um paradoxo. Uma vez que mulheres são tratadas como infantis e ao mesmo tempo é exigido delas uma maturidade, em relação às questões domésticas, familiares e maternas.

A profissional ainda comenta sobre o caso de mulheres adultas brincando com bonecas realistas, que foi extremamente criticado e chocou o Brasil em 2025. Ironizando o fato do futebol ser, de certa forma, um jogo “banal” mas, ainda assim, levado à sério pela sociedade.

Quando os meninos continuam jogando bola e tornando isso algo profissional, isso é legítimo, e quando as mulheres resolvem continuar brincando de boneca, algo que elas foram ensinadas a brincar, isso é criticado.

A história das “fangirls” 

Não era incomum manchetes de jornais dos anos 1960 reportarem alguma “loucura” feita por fãs dos Beatles, como invadir o palco enquanto o grupo se apresentava, desmaiar de emoção e até perseguir a banda nas ruas. Paul McCartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr ressignificam o termo de “fã” com o fenômeno global que foi a Beatlemania. Qualquer aparição do grupo era motivo de superlotação, em qualquer lugar que fosse. Na primeira passagem da banda pelos Estados Unidos, em 1964, se depararam com a seguinte cena: 40 mil fãs barricadas pela polícia local, se pendurando em bancos dos terminais do aeroporto, agrupadas em cima de prédios e tentando se jogar dos muros de contenção. 

O termo “mania” se tornou a nova denominação para fãs, e, com ele, vem um novo significado: histéricas, frenéticas, gritantes e “stalkers”. 

Em 2010, tudo mudou com o grupo One Direction. Os cinco meninos adolescentes se tornaram os novos Beatles em um piscar de olhos. O grupo formado em um programa televisivo britânico uniu os talentos Liam, Louis, Zayn, Niall e Harry no que seria a maior “boyband” do mundo. As “Directioners” surgiram na medida em que as novas tecnologias de comunicação como os celulares e o avanço das redes sociais foram surgindo. Assim, era comum a circulação e o engajamento de postagens que aumentaram ainda mais a popularidade da banda e uma maior união dos fãs. As fãs do One Direction não só impactaram o mundo da internet, como também impactaram e moveram a indústria da música, mudando o foco para o consumo e produção de novas “boybands”. Desde o fim da banda, em 2015, as fãs se unem pelas redes pela nostalgia e apoiando a carreira solo dos ex-membros.

A nova “mania”

De forma mais recente, temos o impacto das “Swifties”. A cantora e compositora americana Taylor Swift, na sua mais recente turnê de quase dois anos de duração, The Eras Tour, teve seus fãs dominando e movimentando a economia mundial e até mesmo provocando abalos sísmicos. Porém, com o aumento de crianças virando fãs da cantora e a circulação nas redes sociais, as coisas foram mudando. A base de fãs “Swifties” passou a ser vista como “infantil” e “militante”, fazendo com que a geração Z e os usuários da internet vissem esse fandom como tóxico, atrelando esse comportamento como incentivado pela própria cantora.

Estádio lotado no show da cantora Taylor Swift em São Paulo, as luzes estão apagadas com apenas um foco de luz sobre a cantora, que é loira, branca e veste uma roupa multicolorida e brilhante. A plateia está lotada com lanternas de celular ligadas irradiando vários pontos de luz no estádio escuro.
Taylor Swift em show da The Eras Tour – Foto: Maria Fernanda Rocha/Agenzia

Em pleno século 21, as fãs são vistas pela mídia do mesmo jeito de quase 60 anos antes: descontroladas, histéricas e doentes pelos artistas. Porém, o preconceito midiático apaga o poder que essas “fangirls” têm: ser fã é um trabalho ávido que poucas pessoas conseguem se dedicar. Não curiosamente, as adolescentes que tinham contas dedicadas a seus artistas favoritos cresceram e têm carreiras bem sucedidas, trabalhando com comunicação, marketing e até mesmo na indústria da música. Infelizmente, a infantilidade atrelada à cultura fanática faz com que essa comunidade e o seu trabalho seja invalidado.

Devemos nos perguntar: até quando a sociedade enxergará as fãs como adolescentes obcecadas e começará a validá-las como produtoras e especialistas da cultura pop? 

O lugar da mulher na cultura pop contemporânea. 

Se antes a mídia tradicional rotulava as fãs, hoje o julgamento se espalha de forma descentralizada, mas permanece a mesma lógica de deslegitimação. O público feminino sempre foi um grande consumidor e impulsionador cultural, mas as mulheres nunca tiveram validação social nessa indústria. Quanto mais a cultura pop cresce, mais as mulheres a sustentam, e mais são deslegitimadas dentro dela.

Ao longo do tempo, o que se observa não é uma mudança no comportamento das fãs, mas na forma como esse comportamento é enquadrado, a partir de uma lente que desvaloriza o que é associado ao feminino.

Quando a gente ridiculariza o entusiasmo feminino, a gente mantém a mulher no locus de submissão. Você ridiculariza a mulher no sentido de que ela ainda é vista como um ser que não tem capacidade intelectual. Trata-se de uma violência simbólica quando associamos o feminino só a sensibilidade, só ao emocional. Então, o que fica em jogo é a manutenção do aprisionamento de uma imagem da mulher que não tem muito a dizer, não tem muito a contribuir, e que o entusiasmo da mulher é um entusiasmo imaturo

Afirma Vanessa Bortulucce, historiadora, pesquisadora da arte e da cultura de massa e docente do Centro Universitário Assunção. 

A figura da “fã histérica”, assim, não surge como um fenômeno isolado, mas como resultado de um processo histórico que atravessa diferentes épocas e meios de comunicação.

Ainda que os contextos mudem, o julgamento sobre o entusiasmo feminino permanece, revelando mais sobre a sociedade que as ridiculariza, do que sobre aquelas que expressam sua paixão.

Qual o caminho de combate desse estigma?

Ainda de acordo com a professora Vanessa, a mudança se inicia com mulheres se colocando como formadoras de opinião. Indo além de todos aqueles lugares que querem que a figura feminina fique concentrada e limitada. 

Mulheres participando de todas as produções culturais, de todas as profissões, de todas as atuações, e fazer-se ouvir. Não é uma coisa fácil, porque a nossa sociedade ainda considera mais o olhar masculino. Então acho que a mulher tem que fazer esse movimento de olhar para si e olhar para fora. De se colocar no mundo e de se afirmar no mundo com gostos e opiniões e posicionamentos que estão ali no mesmo nível de igualdade que os homens.

Autores

  • Oiê, eu sou a Mafê! : )

    Estudante de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero e tecnóloga em publicidade, apaixonada por comunicação e boas histórias. Cantora, atriz e entusiasta da cultura, produzindo conteúdo e mostrando meu lifestyle no meu perfil do Instagram nas horas vagas.

    "Não podemos deixar de falar do que vimos e ouvimos" At 4.20

     

  • Estudante de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, com interesse em política e apaixonada por música, moda e cultura pop!

  • Estudante de Jornalismo na Cásper Líbero. Interesse em entretenimento, cultura, economia, literatura, política... Enfim, um pouco de tudo.

    Às vezes escrevo no meu blog do Substack quando bate inspiração.

  • Estudante de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero.  Interessada em livros, música, filmes e cultura pop no geral!

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Maria Fernanda Rocha Goes Albuquerque

Oiê, eu sou a Mafê! : ) Estudante de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero e tecnóloga em publicidade, apaixonada por comunicação e boas histórias. Cantora, atriz e entusiasta da cultura, produzindo conteúdo e mostrando meu lifestyle no <a href="https://www.instagram.com/amaferocha/">meu perfil do Instagram</a> nas horas vagas. "Não podemos deixar de falar do que vimos e ouvimos" At 4.20